c. 2100 – 1950 a.C. Datação em debate
A literatura de crise e os ensinamentos morais
As Admoestações de Ipuur, a profecia de Neferti, o ensinamento dirigido a Merikaré e o diálogo entre um homem cansado e sua alma descrevem um país invertido, cofres vazios e violência nas estradas. Por muito tempo foram lidos como relato direto da divisão do Egito, leitura hoje aceita com reservas.
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Contexto
Os manuscritos que preservam esse conjunto são todos posteriores: o de Ipuur foi copiado na XIX Dinastia, os de Neferti e de Merikaré no Novo Império, e o diálogo do homem com sua alma pertence a um exemplar do Médio Império. Os temas se repetem: o pobre enriquece e o rico mendiga, filhos abandonam os pais, estrangeiros circulam pelo delta, tumbas são violadas e ninguém ara por medo. Em Neferti, a desordem termina com a chegada de um rei salvador cujo nome corresponde ao fundador da XII Dinastia, indício forte de que o texto foi escrito depois dos fatos que anuncia.
Esses eram textos de escola, copiados por aprendizes para exercitar a escrita e absorver uma doutrina de governo. O gênero usa a lamentação como argumento: pinta o caos para demonstrar que só a realeza forte mantém a ordem. Por isso, servem sobretudo como evidência do pensamento político do Médio Império a respeito da época anterior, e não como descrição de suas condições. A arqueologia do período mostra centros provinciais prósperos, com oficinas ativas e sepulturas ricas, quadro incompatível com a ruína generalizada que os textos descrevem.
Sobre a datação
Esses textos sobrevivem em cópias de séculos depois, e vocabulário, métrica e temas apontam para composição já no Médio Império; parte considerável dos especialistas os considera posteriores ao período que descrevem.
Importância histórica
Este conjunto é, ao mesmo tempo, a origem da imagem tradicional do período como catástrofe e o melhor exemplo de por que essa imagem precisa ser revista. Ele deu ao Egito seus primeiros textos literários de reflexão sobre justiça, morte e legitimidade do poder, e forneceu à língua escrita os modelos que as escolas copiariam por mil anos. Distinguir o valor literário desses escritos de seu valor histórico é uma das operações centrais no estudo do Primeiro Período Intermediário.
Consequências
- Criou o repertório de lamentação e conselho copiado nas escolas por mil anos.
- Firmou a defesa da realeza forte como argumento literário recorrente.
- Moldou a imagem do período como época de desordem, hoje revista pela arqueologia.
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