Eixo temático
Escrita
Surgimento e evolução dos sistemas de escrita, literatura e registro documental.
12 acontecimentos De c. 3320 – 3200 a.C. a 1822 d.C.
Período Pré-Dinástico
c. 5300 – 3000 a.C.
1 acontecimento
c. 3320 – 3200 a.C. Datação em debate Etiquetas de Abidos registram os primeiros sinais de escrita Na tumba U-j, em Abidos, apareceram cerca de cento e cinquenta etiquetas de osso e marfim com sinais incisos, além de vasos com inscrições a tinta. Parte dos especialistas lê ali nomes de lugares e…
- Localização
- Tumba U-j, cemitério U de Abidos
Alto Egito - Dinastia
- Anterior às dinastias
- Governante
- Não atribuído
A tumba é uma das maiores do cemitério U, com várias câmaras de tijolo e centenas de jarras importadas que continham vinho do Levante. As etiquetas têm poucos centímetros, são perfuradas para serem amarradas a mercadorias e trazem de um a três sinais incisos. A missão que as escavou entendeu esses grupos como nomes de propriedades, de localidades e indicações de quantidade, isto é, notação administrativa. Outros pesquisadores argumentam que marcas de identificação e de posse não bastam para caracterizar um sistema capaz de escrever a língua falada.
A datação alta proposta pela missão que escavou a tumba, em torno de 3320 a.C., apoia-se na etapa cerâmica e em análises do material associado; outros autores rebaixam o conjunto em um ou dois séculos. A leitura fonética dos sinais também é contestada.
Antigo Império
c. 2686 – 2181 a.C.
1 acontecimento
c. 2350 a.C. Datação aproximada Os Textos das Pirâmides aparecem na tumba de Unas As paredes da câmara funerária e da antecâmara de Unas, em Saqara, receberam colunas de hieróglifos com fórmulas destinadas a garantir a passagem do rei morto. É o mais antigo conjunto extenso de textos…
- Localização
- Pirâmide de Unas, em Saqara
Baixo Egito - Dinastia
- V Dinastia
- Governante
- Unas
A pirâmide de Unas é pequena e mal conservada por fora, mas suas câmaras internas trazem cerca de duzentas e trinta fórmulas dispostas em ordem ritual, das paredes que cercam o sarcófago em direção à saída. O repertório reúne o ritual de oferendas, encantamentos de proteção contra serpentes e escorpiões, passagens sobre a subida ao céu, a integração ao curso do sol e às estrelas que nunca se põem, além de trechos ligados a Osíris. A grafia é cuidadosa, com sinais pintados em verde e distribuição calculada para caber no espaço.
As inscrições pertencem ao reinado de Unas, estimado em cerca de trinta anos no fim da V Dinastia; parte das fórmulas é mais antiga que a própria gravação e não pode ser datada.
Primeiro Período Intermediário
c. 2181 – 2055 a.C.
1 acontecimento
c. 2100 – 1950 a.C. Datação em debate A literatura de crise e os ensinamentos morais As Admoestações de Ipuur, a profecia de Neferti, o ensinamento dirigido a Merikaré e o diálogo entre um homem cansado e sua alma descrevem um país invertido, cofres vazios e violência nas estradas. Por muito…
- Localização
- Escolas de escribas do Médio Egito e de Tebas
Todo o Egito - Dinastia
- Anterior às dinastias
- Governante
- Não atribuído
Os manuscritos que preservam esse conjunto são todos posteriores: o de Ipuur foi copiado na XIX Dinastia, os de Neferti e de Merikaré no Novo Império, e o diálogo do homem com sua alma pertence a um exemplar do Médio Império. Os temas se repetem: o pobre enriquece e o rico mendiga, filhos abandonam os pais, estrangeiros circulam pelo delta, tumbas são violadas e ninguém ara por medo. Em Neferti, a desordem termina com a chegada de um rei salvador cujo nome corresponde ao fundador da XII Dinastia, indício forte de que o texto foi escrito depois dos fatos que anuncia.
Esses textos sobrevivem em cópias de séculos depois, e vocabulário, métrica e temas apontam para composição já no Médio Império; parte considerável dos especialistas os considera posteriores ao período que descrevem.
Médio Império
c. 2055 – 1650 a.C.
1 acontecimento
c. 1930 a.C. Datação aproximada A História de Sinuhe fixa a língua clássica A História de Sinuhe conta a fuga de um cortesão para o Levante e seu retorno na velhice. É obra de ficção, não relato de acontecimentos, e virou o texto mais copiado das escolas de escribas egípcias…
- Localização
- Escolas de escribas de Itjtauy e Tebas
Todo o Egito - Dinastia
- XII Dinastia
- Governante
- Senusret I
A narrativa é escrita em primeira pessoa e imita a forma das autobiografias gravadas em túmulos, recurso que faz parte da arte do texto e engana o leitor apressado. Sinuhe é um funcionário do palácio que ouve a notícia da morte de Amenemhat I, entra em pânico sem que se explique por quê e foge para o norte. Instala-se no Retenu, onde o chefe Amunenshi lhe dá terra e uma filha em casamento; enriquece, tem filhos, vence um campeão local em combate singular e envelhece longe de casa. No fim, escreve ao rei, é perdoado e volta para receber um túmulo egípcio, o que na lógica do enredo é o verdadeiro prêmio.
A composição é situada no reinado de Senusret I por critérios internos de escrita e vocabulário, e esse reinado só pode ser datado em números absolutos por meio de observações lunares e sincronismos parciais, com margem de algumas décadas.
Segundo Período Intermediário
c. 1777 – 1550 a.C.
1 acontecimento
c. 1550 a.C. Datação aproximada O papiro matemático de Rhind é copiado em Avaris Escrito pelo escriba Ahmés no ano trinta e três do rei Apepi, o documento declara ser cópia de um texto do tempo de Amenemhat III. Reúne mais de oitenta problemas resolvidos: divisão de pães, força da cerveja…
- Localização
- Avaris, com original do Médio Império
Baixo Egito - Dinastia
- XV Dinastia
- Governante
- Apepi
A obra abre com uma tabela que converte a fração dois sobre um número ímpar em somas de frações de numerador um, ferramenta básica da aritmética egípcia, que só operava com partes unitárias. Vêm depois os problemas, na forma de enunciado, cálculo e verificação: repartir um número de pães entre trabalhadores em cotas desiguais, medir a força do pão e da cerveja pela quantidade de grão empregada, calcular ração de animais, resolver questões de quantidade desconhecida equivalentes a equações de primeiro grau, achar áreas de triângulos e de quadriláteros, calcular a área do círculo elevando ao quadrado oito nonos do diâmetro, obter o volume de celeiros cilíndricos e determinar a inclinação constante de uma face de pirâmide ou de uma rampa.
O manuscrito traz a data do ano trinta e três de Apepi, o que o situa no fim do domínio de Avaris; converter esse ano de reinado em data absoluta depende das âncoras lunares e dos sincronismos parciais que sustentam a cronologia do período.
Época Baixa
c. 664 – 332 a.C.
2 acontecimentos
593 a.C. Datação aproximada Soldados de Psamético II assinam a parede de Abu Simbel Na perna de um colosso de Ramsés II, soldados a serviço de Psamético II gravaram em grego, em cário e em fenício o registro de sua subida do Nilo. O conjunto está entre os textos alfabéticos gregos mais…
- Localização
- Abu Simbel, durante a campanha contra Cuxe
Núbia e Cuxe - Dinastia
- XXVI Dinastia
- Governante
- Psamético II
No terceiro ano de reinado, Psamético II enviou contra Cuxe uma expedição que subiu o rio muito além da Segunda Catarata. Estelas encontradas em Tânis, Karnak e Assuã celebram a vitória, e o mesmo reinado ordenou o apagamento dos nomes dos reis núbios nos monumentos egípcios. O grafite grego de Abu Simbel completa o quadro pelo lado da tropa: diz que os autores chegaram até onde o rio permitia navegar, na altura de Kerkis, e nomeia os dois comandantes, um à frente dos contingentes estrangeiros e outro à frente dos egípcios.
A campanha é datada do terceiro ano de Psamético II por estelas egípcias, mas os grafites não trazem data. Discute-se se foram gravados na subida do rio ou no regresso.
c. 450 a.C. Datação em debate Heródoto visita o Egito e escreve sobre o país O segundo livro das Histórias descreve o Egito sob domínio persa: embalsamamento, cultos animais, festas, o regime da cheia e uma longa lista de reis. Heródoto afirma ter chegado a Elefantina, mas a extensão…
- Localização
- Do delta a Elefantina
Todo o Egito - Dinastia
- XXVII Dinastia
- Governante
- Heródoto de Halicarnasso
O relato é a mais antiga descrição extensa do Egito feita por um estrangeiro e continua indispensável. Dele vêm informações que nenhuma outra fonte conserva: as três faixas de preço do embalsamamento, o funcionamento de Náucratis, a instalação dos soldados estrangeiros, o calendário de festas em Bubástis, as medições do edifício de Hauara que os gregos chamavam de Labirinto. Heródoto diz ter conversado com sacerdotes em Mênfis, em Tebas e em Heliópolis, e recorreu a intérpretes, quase certamente das comunidades gregas e cárias instaladas no país havia gerações.
A viagem é datada apenas por indícios internos da obra, entre cerca de 460 e 440 a.C. A extensão do roteiro, a duração da estadia e a confiabilidade de várias informações continuam em debate.
Período Ptolemaico
332 – 30 a.C.
3 acontecimentos
c. 290 a.C. Datação aproximada A Biblioteca e o Museu de Alexandria O Museu era uma instituição do palácio, com sábios assalariados, refeitório comum e uma coleção de rolos reunida por compra e cópia sistemáticas. Dela saíram a crítica de textos, o catálogo por autor e gênero…
- Localização
- Bairro real de Alexandria
Baixo Egito - Dinastia
- Dinastia ptolemaica
- Governante
- Ptolomeu II Filadelfo
Nada ali se parecia com uma biblioteca aberta ao público. O conjunto ficava dentro do bairro real, junto aos palácios, e reunia um recinto consagrado às Musas, colunatas, salas de trabalho e uma mesa comum onde os eruditos comiam por conta do rei, isentos de tributo. A direção da coleção passou por Zenódoto, Apolônio de Rodes, Eratóstenes, Aristófanes de Bizâncio e Aristarco. Calímaco organizou o acervo em catálogos por gênero e autor, com dados de atribuição e primeiras palavras de cada obra. Uma segunda coleção, menor, funcionava junto ao santuário de Serápis.
Nenhum documento datado registra a criação das duas instituições. A iniciativa é atribuída a Ptolomeu I e sua organização a Ptolomeu II, e a data funciona como marco convencional.
c. 280 a.C. Datação aproximada Manetão organiza a história egípcia em dinastias Sacerdote de Sebenitos, Manetão escreveu em grego uma história do Egito que distribuía os soberanos em trinta linhagens sucessivas. O texto original desapareceu e sobrevive em resumos discordantes, mas a…
- Localização
- Alexandria e templo de Sebenitos
Baixo Egito - Dinastia
- Dinastia ptolemaica
- Governante
- Ptolomeu II Filadelfo
Manetão pertencia ao clero de uma cidade do delta e tinha acesso aos arquivos de templo, com listas de reis, anais e registros de reinado acumulados por séculos. Escreveu para leitores de fora, no momento em que uma casa macedônia precisava entender e reivindicar o passado do país que governava. Sua obra, em três livros, ia dos deuses e semideuses até o domínio persa, e agrupava os reis por sede de poder e por família, com duração de cada reinado e notas curtas sobre acontecimentos. O agrupamento em trinta linhagens é dele; a trigésima primeira foi acrescentada depois.
A obra não traz data e o autor é conhecido apenas por citações de terceiros. Sua composição é situada no reinado de Ptolomeu II com base em referências indiretas.
196 a.C. Datação estabelecida O decreto de Mênfis inscrito na Pedra de Roseta Reunidos em Mênfis em março de 196 a.C., os sacerdotes do Egito votaram honras e culto ao jovem Ptolomeu V em troca de isenções, perdão de dívidas e confirmação das rendas dos templos. O acordo devia ser…
- Localização
- Mênfis, com cópia erguida em Sais
Baixo Egito - Dinastia
- Dinastia ptolemaica
- Governante
- Ptolomeu V Epifânio
O reinado começara mal. Ptolomeu V herdou o trono criança, o reino perdeu suas possessões externas na guerra contra os selêucidas e o Alto Egito estava em revolta havia uma década, sob soberanos locais que se proclamaram faraós em Tebas. A coroação segundo o rito egípcio, celebrada em Mênfis, foi parte da resposta: um gesto dirigido ao clero, cuja colaboração era indispensável para arrecadar e governar o interior. O sínodo sacerdotal reunido na mesma cidade aprovou então o texto que conhecemos, no qual o rei aparece como restaurador da ordem e vencedor da rebelião de Licópolis.
Domínio romano
30 a.C. – 641 d.C.
1 acontecimento
394 d.C. Datação estabelecida A última inscrição hieroglífica é gravada em Filas Em 24 de agosto de 394, um sacerdote gravou no templo de Ísis, em Filas, algumas linhas em hieróglifos acompanhadas de texto em demótico. É o registro datado mais recente que se conhece dessa escrita, usada de…
- Localização
- Templo de Ísis, na ilha de Filas
Alto Egito - Dinastia
- Província romana e bizantina
- Governante
- Teodósio I
A inscrição é obra de Esmet-Akhom, integrante de uma família sacerdotal ligada ao santuário, e acompanha a figura de Mandúlis, divindade cultuada na região da Primeira Catarata. Traz data precisa e vem seguida de linhas em demótico, a escrita cursiva usada no cotidiano dos últimos séculos. Convém ser exato quanto ao alcance do fato: não se trata necessariamente do último ato de escrita hieroglífica, e sim do exemplo datado mais recente que sobreviveu. Textos posteriores sem data, ou simplesmente perdidos, não podem ser descartados. No mesmo templo está também o registro demótico datado mais tardio de que se tem notícia, do ano 452.
Descobertas arqueológicas
1798 d.C. – presente
1 acontecimento
1822 d.C. Datação estabelecida Champollion decifra a escrita hieroglífica Em setembro de 1822, Champollion demonstrou que os sinais hieroglíficos registravam sons da língua egípcia, e não apenas ideias. A leitura de nomes reais dentro das cartelas e o domínio do copta permitiram…
- Localização
- Paris, a partir de cópias da Pedra de Roseta
Mediterrâneo e Egeu - Dinastia
- Anterior às dinastias
- Governante
- Jean-François Champollion
O trabalho não começou do zero. Entre 1814 e 1819, o inglês Thomas Young estabeleceu que a escrita cursiva do decreto e os hieróglifos pertenciam ao mesmo sistema, isolou a cartela de Ptolomeu, propôs valores sonoros corretos para vários sinais e percebeu que os nomes reais eram grafados foneticamente. Young considerou, no entanto, que esse recurso servia apenas para transcrever nomes estrangeiros, e não para escrever a própria língua do país. Um obelisco trazido de Filas, com os nomes de Ptolomeu e de Cleópatra, ofereceu um segundo ponto de conferência para as equivalências então em discussão.
Outros eixos