c. 1930 a.C. Datação aproximada
A História de Sinuhe fixa a língua clássica
A História de Sinuhe conta a fuga de um cortesão para o Levante e seu retorno na velhice. É obra de ficção, não relato de acontecimentos, e virou o texto mais copiado das escolas de escribas egípcias: exemplares atravessam mais de mil anos, da XII Dinastia ao Terceiro Período Intermediário.
Médio Império Escrita Sinuhe literatura escribas egípcio médio
Contexto
A narrativa é escrita em primeira pessoa e imita a forma das autobiografias gravadas em túmulos, recurso que faz parte da arte do texto e engana o leitor apressado. Sinuhe é um funcionário do palácio que ouve a notícia da morte de Amenemhat I, entra em pânico sem que se explique por quê e foge para o norte. Instala-se no Retenu, onde o chefe Amunenshi lhe dá terra e uma filha em casamento; enriquece, tem filhos, vence um campeão local em combate singular e envelhece longe de casa. No fim, escreve ao rei, é perdoado e volta para receber um túmulo egípcio, o que na lógica do enredo é o verdadeiro prêmio.
A transmissão desse texto não tem paralelo. A cópia mais completa está em um papiro conservado em Berlim, do fim do Médio Império, e há outra em um lote de papiros achado em Tebas. Do Novo Império sobrevivem dezenas de tabuinhas e fragmentos de cerâmica com trechos copiados por alunos, incluindo um exemplar grande com o início da obra. Essa longa vida escolar explica por que o dialeto em que foi escrito, o egípcio médio, tornou-se a norma literária clássica: era o que se aprendia a copiar. Textos monumentais continuaram a imitá-lo mesmo quando a fala corrente já havia mudado bastante.
Sobre a datação
A composição é situada no reinado de Senusret I por critérios internos de escrita e vocabulário, e esse reinado só pode ser datado em números absolutos por meio de observações lunares e sincronismos parciais, com margem de algumas décadas.
Importância histórica
Sinuhe é a peça central da literatura egípcia e o principal documento da língua clássica, aquela que os escribas de mil anos depois ainda tomavam como modelo. O texto também mostra o que a corte pensava do mundo além da fronteira: o Levante aparece habitável e generoso, mas o protagonista só se completa ao ser sepultado em casa. Como ficção que finge ser autobiografia, exige do leitor moderno o mesmo cuidado que exigia do antigo.
Consequências
- Consolidou o egípcio médio como norma escrita ensinada e imitada por mais de mil anos.
- Tornou-se exercício padrão de cópia nas escolas, o que explica a quantidade de exemplares conservados.
- Registrou a forma como a corte representava os chefes e os povos do Levante.
- Ofereceu à literatura posterior o molde do relato em primeira pessoa.
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