c. 1500 a.C. Datação aproximada
O Vale dos Reis substitui as pirâmides reais
A monarquia abandonou o túmulo visível e passou a esconder a sepultura em um uádi atrás da montanha tebana, separando-a do templo de culto erguido na planície. A decisão mudou a arquitetura funerária real por quatro séculos e criou a necrópole mais escavada do mundo.
Novo Império Construções Vale dos Reis necrópole real el-Qurn Ineni
Contexto
O uádi escolhido fica sob o pico de el-Qurn, cuja silhueta triangular funcionava como pirâmide natural sobre as tumbas. O acesso único e a escassez de rotas facilitavam a vigilância por guardas da necrópole. A escavação era feita na rocha, com corredores em declive, poços de proteção, câmaras de anexos e uma sala de sarcófago decorada com textos do repertório funerário real, entre eles o Livro do Amduat. O templo de culto, antes acoplado à pirâmide, passou a ser construído a quilômetros de distância, na borda das terras cultivadas.
A mudança está atestada na autobiografia de Ineni, encarregado de obras sob Tutmés I, que afirma ter supervisionado sozinho a escavação da tumba na falésia, sem que ninguém visse ou ouvisse. O sigilo era parte do projeto, e por isso a comunidade de operários viveu isolada em Deir el-Medina. A eficácia da medida foi limitada: a documentação da XX Dinastia mostra processos por saque de tumbas reais, e no fim do Novo Império os sacerdotes retiraram as múmias de suas câmaras originais e as reuniram em esconderijos. Somente a sepultura de Tutancâmon chegou ao século XX praticamente intacta.
Sobre a datação
A atribuição das duas tumbas mais antigas do vale, KV20 e KV38, ao reinado de Tutmés I é debatida, e com ela a data exata da primeira escavação. O reinado em si está bem posicionado na sequência dinástica, com a habitual margem de cerca de dez anos entre a cronologia alta e a baixa.
Importância histórica
A separação entre sepultura oculta e templo de culto encerrou dois milênios de tradição piramidal e redefiniu o que um monumento real deveria ser. Em lugar de anunciar poder pela massa de pedra, a coroa passou a investir em decoração subterrânea, em textos rituais e em segurança. O vale reúne mais de sessenta tumbas escavadas, e sua exploração desde o começo do século XIX moldou os métodos, as prioridades e o próprio imaginário da egiptologia.
Consequências
- Encerrou o uso da pirâmide como sepultura real no Egito.
- Separou de forma definitiva a tumba do templo de culto do rei morto.
- Exigiu uma comunidade permanente de operários e um serviço de guarda da necrópole.
- Concentrou em um único vale as sepulturas de quase todos os reis das XVIII, XIX e XX Dinastias.
Acontecimentos relacionados
-
c. 1520 a.C. Novo Império
A vila de Deir el-Medina abriga os operários das tumbas reais
Em um vale fechado da margem ocidental de Tebas, a coroa instalou o povoado dos artesãos encarregados de escavar e decorar as tumbas reais. Cerca de…
Vida cotidiana -
c. 2560 a.C. Antigo Império
Construção da Grande Pirâmide de Quéops
No planalto de Gizé, o reinado de Quéops ergueu a maior pirâmide já construída, com cerca de 146 metros de altura original e mais de dois milhões de…
Construções -
c. 1110 a.C. Novo Império
Os processos por saque de tumbas reais
Uma comissão nomeada no reinado de Ramsés IX inspecionou as necrópoles de Tebas ocidental e instruiu processos contra ladrões de tumbas. Os papiros…
Administração -
1922 d.C. Descobertas
A tumba de Tutancâmon é encontrada quase intacta
A escada localizada em novembro de 1922 conduziu à única sepultura real do Vale dos Reis encontrada com o enxoval praticamente completo. Foram mais…
Arqueologia