c. 1550 – 1295 a.C.
XVIII Dinastia
A dinastia que transformou o Egito em império: campanhas até o Eufrates, domínio da Núbia até a Quarta Catarata, riqueza sem precedentes para o templo de Amon e, no reinado de Aquenáton, a mais radical reforma religiosa da história egípcia.
Novo Império 20 acontecimentos
Sucessão
Governantes desta linhagem
Reinados em ordem cronológica. As datas anteriores a 664 a.C. são aproximadas.
-
c. 1550 – 1525 a.C.
Amósis I
Expulsou os hicsos, retomou o controle da Núbia e fundou a XVIII Dinastia. Reabriu as pedreiras e reorganizou a administração do país reunificado.
2 registros -
c. 1525 – 1504 a.C.
Amenhotep I
Consolidou a fronteira sul e ampliou Karnak. Foi cultuado por séculos como patrono da comunidade de operários de Deir el-Medina.
2 registros -
c. 1504 – 1492 a.C.
Tutmés I
Levou exércitos egípcios até o Eufrates e até a Quarta Catarata, definindo o alcance máximo da expansão. É provavelmente o primeiro rei sepultado no Vale dos Reis.
2 registros -
c. 1492 – 1479 a.C.
Tutmés II
Reinado curto dedicado a reprimir revoltas na Núbia e no Levante. Casado com Hatshepsut, deixou como herdeiro o futuro Tutmés III, ainda criança.
0 registros -
c. 1479 – 1425 a.C.
Tutmés III
Comandou dezessete campanhas na Ásia, começando pela vitória em Megido, e criou a estrutura de administração imperial no Levante. Seus anais em Karnak são o mais detalhado registro militar egípcio.
4 registros -
c. 1473 – 1458 a.C.
Hatshepsut
Assumiu a realeza plena como corregente de Tutmés III e governou duas décadas de prosperidade, com a expedição ao Punt e o templo de Deir el-Bahari entre suas realizações. Décadas depois, seus…
3 registros -
c. 1427 – 1400 a.C.
Amenhotep II
Manteve por meio de campanhas o império herdado do pai e cultivou uma imagem pública de atleta e arqueiro. Sua tumba abrigou um dos esconderijos de múmias reais.
0 registros -
c. 1400 – 1390 a.C.
Tutmés IV
Mandou desenterrar a Esfinge de Gizé e registrou o feito na Estela do Sonho. Consolidou a paz com Mitani por via diplomática.
1 registro -
c. 1390 – 1352 a.C.
Amenhotep III
Governou o Egito no auge de sua riqueza, com um programa monumental que inclui Luxor, Malkata e os Colossos de Mêmnon. Sua correspondência diplomática integra o arquivo de Amarna.
2 registros -
c. 1352 – 1336 a.C.
Aquenáton
Elevou o disco solar Aton a divindade única do Estado, fechou templos de Amon e fundou a nova capital de Aquetáton. Sua reforma religiosa e artística foi revertida logo após sua morte.
2 registros -
c. 1352 – 1336 a.C.
Nefertiti
Grande esposa real de Aquenáton, representada em cenas de culto com destaque incomum para uma rainha. Parte dos especialistas a identifica com a soberana Neferneferuaton, que teria governado…
0 registros -
c. 1336 – 1327 a.C.
Tutancâmon
Subiu ao trono ainda menino e restaurou os cultos tradicionais, abandonando Aquetáton. Morreu por volta dos dezanove anos; a descoberta intacta de sua tumba em 1922 tornou-o o faraó mais conhecido do…
1 registro -
c. 1327 – 1323 a.C.
Ay
Alto funcionário da corte de Amarna que assumiu o trono após a morte de Tutancâmon, já em idade avançada. Reinou pouco mais de três anos.
0 registros -
c. 1323 – 1295 a.C.
Horemheb
General que se tornou rei e reorganizou a justiça, o exército e a administração dos templos por meio de um decreto de reforma. Encerrou a XVIII Dinastia sem herdeiro direto.
1 registro
Cronologia
Acontecimentos atribuídos à XVIII Dinastia
c. 1550 a.C. Datação aproximada Amósis expulsa os hicsos e funda a XVIII Dinastia A tomada de Avaris e o cerco a Sharuhen encerraram o governo hicso no delta oriental. Amósis reuniu o vale e o delta sob um só rei, reabriu as pedreiras de calcário para as obras dos templos e inaugurou a…
- Localização
- Avaris e Sharuhen, no sul do Levante
Baixo Egito - Dinastia
- XVIII Dinastia
- Governante
- Amósis I
A ofensiva contra Avaris vinha de duas gerações, iniciada por Seqenenré Taa e continuada por Camés. Amósis subiu ao trono menino e retomou as operações quando dispôs de exército e frota. O relato mais detalhado do episódio não está em um monumento real, mas na autobiografia gravada na tumba do oficial de marinha Ahmés, filho de Ibana, em El-Kab: ele descreve combates embarcados no canal de Avaris, a queda da cidade e, em seguida, um cerco prolongado a Sharuhen, além de condecorações em ouro e cativos recebidos como prêmio de bravura.
O reinado de Amósis abre a série cronológica mais firme do Egito faraônico, sustentada por datas lunares, por observações do nascer helíaco de Sirius e por sincronismos com Hatti, a Assíria e a Babilônia. Mesmo assim, a cronologia alta e a baixa separam o início desse reinado por cerca de uma década.
c. 1540 a.C. Datação aproximada O vice-reinado de Cuxe organiza o domínio da Núbia Retomado o sul, a coroa não restaurou a linha de fortalezas do Médio Império: criou um governo civil permanente, chefiado pelo Filho Real de Cuxe. O cargo respondia pela extração de ouro, pela cobrança de…
- Localização
- Do Assuã à Quarta Catarata
Núbia e Cuxe - Dinastia
- XVIII Dinastia
- Governante
- Amósis I
O título egípcio do cargo, Filho Real de Cuxe, não indicava parentesco com o rei: marcava delegação direta de autoridade sobre um território governado à parte do restante do país. O titular tinha dois adjuntos, um para Uauat, entre a Primeira e a Segunda Catarata, e outro para Cuxe, a montante. Sob sua alçada ficavam escribas de celeiro, chefes de minas e comandantes de guarnição. Os primeiros ocupantes conhecidos aparecem já no início da XVIII Dinastia, e a lista de titulares atravessa quatro séculos, o que faz do vice-reinado uma das estruturas administrativas mais estáveis do Egito antigo.
A criação do cargo é situada entre o fim do reinado de Amósis e o de Amenhotep I, intervalo em que a documentação nubiana é escassa. Como no restante do Novo Império, as datas absolutas oscilam cerca de dez anos conforme se adote a cronologia alta ou a baixa, ainda que a sequência interna dos reinados seja segura.
c. 1534 a.C. Datação aproximada O papiro Ebers reúne o conhecimento médico egípcio Com cerca de vinte metros de comprimento e mais de oitocentas prescrições, o papiro Ebers é o maior tratado médico egípcio conservado. Nele convivem receitas medidas em frações precisas, roteiros de exame do…
- Localização
- Tebas, com originais mais antigos
Todo o Egito - Dinastia
- XVIII Dinastia
- Governante
- Amenhotep I
O rolo tem cento e dez páginas e foi copiado por um escriba a partir de tratados mais antigos, alguns provavelmente do Médio Império, como mostram a linguagem e as repetições internas. Os capítulos se organizam por queixa: dores abdominais, doenças dos olhos, afecções da pele, mordidas, problemas ginecológicos, males da cabeça. Muitas entradas seguem um roteiro fixo, que começa pelo exame do doente, passa ao juízo do profissional e termina na prescrição, com ingredientes como mel, óleo de rícino, tâmaras, cominho, cerveja doce e minerais moídos, dosados em frações de medidas correntes.
O verso do documento traz uma tabela de calendário com o ano nove de um rei não nomeado, geralmente identificado como Amenhotep I, o que fornece a data da cópia e não a da composição. Essa referência é uma das âncoras da cronologia do início da XVIII Dinastia, cujas datas absolutas ainda variam cerca de dez anos entre as propostas alta e baixa.
c. 1520 a.C. Datação aproximada A vila de Deir el-Medina abriga os operários das tumbas reais Em um vale fechado da margem ocidental de Tebas, a coroa instalou o povoado dos artesãos encarregados de escavar e decorar as tumbas reais. Cerca de setenta casas dentro de um muro, salários pagos em grão e…
- Localização
- Deir el-Medina, margem ocidental de Tebas
Alto Egito - Dinastia
- XVIII Dinastia
- Governante
- Amenhotep I
Os moradores se identificavam como servidores do Lugar da Verdade e trabalhavam divididos em duas turmas, a da direita e a da esquerda, cada uma com um chefe, um subchefe e um escriba. O pagamento vinha do tesouro do templo funerário em atividade e consistia sobretudo em trigo emmer e cevada, entregues por mês em sacos, com porções maiores para os chefes e o escriba, além de peixe, verduras, lenha, cerveja, óleo e água trazida por burros, já que o vale não tem poço. Atrasos na entrega do grão paralisavam a vila e geraram registros de reclamação formal.
Tijolos com o selo de Amenhotep I e de Tutmés I situam a fundação no começo do século XVI a.C., embora o povoado só se torne bem documentado a partir da XIX Dinastia. As datas absolutas dependem da cronologia adotada, com diferença próxima de dez anos entre as versões alta e baixa.
c. 1500 a.C. Datação aproximada O Vale dos Reis substitui as pirâmides reais A monarquia abandonou o túmulo visível e passou a esconder a sepultura em um uádi atrás da montanha tebana, separando-a do templo de culto erguido na planície. A decisão mudou a arquitetura funerária real por…
- Localização
- Vale dos Reis, Tebas ocidental
Alto Egito - Dinastia
- XVIII Dinastia
- Governante
- Tutmés I
O uádi escolhido fica sob o pico de el-Qurn, cuja silhueta triangular funcionava como pirâmide natural sobre as tumbas. O acesso único e a escassez de rotas facilitavam a vigilância por guardas da necrópole. A escavação era feita na rocha, com corredores em declive, poços de proteção, câmaras de anexos e uma sala de sarcófago decorada com textos do repertório funerário real, entre eles o Livro do Amduat. O templo de culto, antes acoplado à pirâmide, passou a ser construído a quilômetros de distância, na borda das terras cultivadas.
A atribuição das duas tumbas mais antigas do vale, KV20 e KV38, ao reinado de Tutmés I é debatida, e com ela a data exata da primeira escavação. O reinado em si está bem posicionado na sequência dinástica, com a habitual margem de cerca de dez anos entre a cronologia alta e a baixa.
c. 1500 a.C. Datação aproximada Tutmés I leva o exército egípcio ao Eufrates Duas frentes marcaram esse reinado: ao sul, a conquista até a Terceira Catarata, comemorada na estela de Tombos; ao norte, uma marcha inédita até o Eufrates, onde o rei mandou erguer uma estela de fronteira…
- Localização
- Norte da Síria, margem do Eufrates
Levante e Síria - Dinastia
- XVIII Dinastia
- Governante
- Tutmés I
No segundo ano de reinado, uma estela gravada na rocha em Tombos, junto à Terceira Catarata, registra a derrota das forças de Cuxe e a instalação do domínio egípcio a montante. Textos do período descrevem o corpo de um arqueiro núbio pendurado na proa do navio real na volta a Tebas, imagem de vitória destinada ao público interno. No mesmo reinado, o canal aberto na Primeira Catarata em tempos de Senusret III foi desobstruído para permitir a passagem da frota, obra registrada em inscrição na ilha de Sehel.
A campanha na Síria é conhecida por textos comemorativos e por biografias de oficiais, sem data de ano preservada de forma segura. A posição do reinado na sequência do Novo Império é firme, ainda que as datas absolutas se desloquem cerca de uma década conforme a cronologia escolhida.
c. 1473 a.C. Datação aproximada Hatshepsut assume a realeza plena Viúva de Tutmés II, Hatshepsut governou primeiro como regente do enteado criança e, entre o segundo e o sétimo ano desse reinado, adotou titulatura real completa. A solução manteve os dois nomes no trono e foi…
- Localização
- Tebas
Alto Egito - Dinastia
- XVIII Dinastia
- Governante
- Hatshepsut
Filha de Tutmés I e esposa principal de Tutmés II, Hatshepsut acumulava o cargo sacerdotal de Esposa Divina de Amon quando o marido morreu deixando um herdeiro muito jovem. As primeiras inscrições da regência a apresentam como grande esposa real que administra o país em nome do menino. Nos anos seguintes, os epítetos mudam: ela recebe os cinco nomes da titulatura faraônica, entre eles o prenome Maatkaré, e passa a ser representada com o pano de cabeça, o saiote curto e, em parte das imagens, a barba cerimonial do ofício, sem que o gênero feminino desapareça dos textos, onde formas masculinas e femininas alternam.
A passagem da regência à realeza é datada pelos anos de reinado de Tutmés III, que continuaram a ser contados durante toda a corregência, entre o ano dois e o ano sete. Convertida em datas absolutas, a transição varia cerca de dez anos segundo a cronologia adotada para o Novo Império.
c. 1470 a.C. Datação aproximada A expedição ao Punt e o comércio de incenso Cinco navios partiram de um porto do Mar Vermelho em busca de resinas aromáticas e voltaram carregados de mirra, ébano, marfim, ouro e animais vivos. O pórtico sul de Deir el-Bahari registrou a viagem em…
- Localização
- Do Mar Vermelho ao Punt, provavelmente na costa africana
Deserto Oriental e Mar Vermelho - Dinastia
- XVIII Dinastia
- Governante
- Hatshepsut
O Punt aparece em documentos egípcios desde a V Dinastia como fonte das resinas queimadas nos templos. Os relevos do templo de Deir el-Bahari são o registro mais detalhado de uma dessas viagens: mostram a montagem dos navios, a travessia, as casas do Punt erguidas sobre estacas entre palmeiras, peixes do Mar Vermelho desenhados com precisão suficiente para identificação de espécie, e o encontro com o chefe Parehu e sua esposa Ati. A chefia da missão é atribuída ao chanceler Nehesi, e a expedição combinou trecho fluvial, travessia do deserto oriental com as peças das embarcações e navegação costeira.
Os relevos situam a viagem no ano nove da corregência, mas não trazem indicação de mês nem de duração total. A conversão para datas absolutas herda a margem de cerca de dez anos que separa as cronologias alta e baixa do Novo Império.
c. 1460 a.C. Datação aproximada Os obeliscos de Karnak e as pedreiras de Assuã Dois monólitos de granito extraídos em Assuã foram erguidos entre o quarto e o quinto pilone de Karnak. O que permanece de pé tem quase trinta metros e mais de trezentas toneladas, e sua base afirma que a…
- Localização
- Karnak e pedreiras de granito de Assuã
Alto Egito - Dinastia
- XVIII Dinastia
- Governante
- Hatshepsut
O granito vermelho vinha das pedreiras da margem oriental de Assuã, onde o bloco era isolado por trincheiras abertas a golpes de esferas de dolerito e depois desprendido da rocha viva. O transporte, cerca de duzentos quilômetros rio abaixo, aparece representado em relevo no pórtico inferior de Deir el-Bahari: dois obeliscos deitados lado a lado sobre uma barcaça imensa, rebocada por filas de embarcações a remo. A operação, atribuída nos textos ao mordomo Senenmut, dependia da cheia para aproximar a carga do canteiro e de rampas de tijolo e areia para o levantamento final.
A inscrição da base do obelisco conservado menciona o ano dezesseis da corregência e um prazo de sete meses entre a extração e a instalação. As datas absolutas correspondentes oscilam cerca de uma década entre a cronologia alta e a baixa.
1457 a.C. Datação aproximada A batalha de Megido inaugura o império asiático Ao assumir o governo sozinho, Tutmés III enfrentou uma coalizão de cidades sírias e palestinas reunida em Megido. A escolha da passagem estreita de Aruna surpreendeu o inimigo, e o cerco que se seguiu durou…
- Localização
- Megido, no vale de Jezreel
Levante e Síria - Dinastia
- XVIII Dinastia
- Governante
- Tutmés III
Os anais foram inscritos nas paredes em torno do santuário de granito de Karnak e derivam de um diário de campanha guardado em rolo no templo de Amon, o que explica o nível de detalhe: datas, itinerários, discursos em conselho de guerra e listas de despojos. Segundo esse texto, a coalizão era chefiada pelo governante de Cades e reunia centenas de chefes locais. O conselho de oficiais recomendou os caminhos largos; o rei impôs a trilha de Aruna, onde a coluna teve de avançar em fila indiana, e apareceu na planície de Jezreel pelo flanco desprotegido.
Os anais datam o combate com precisão de dia dentro do ano vinte e três de Tutmés III, o que faz dele um dos acontecimentos militares mais bem registrados da Antiguidade. A conversão para o calendário atual, no entanto, produz resultados que variam cerca de vinte e cinco anos entre a cronologia alta e a baixa, com 1457 a.C. como valor mais usado.
c. 1450 a.C. Datação aproximada Os anais de Tutmés III e a administração das províncias asiáticas Dezessete campanhas em vinte anos não produziram anexação direta, mas um sistema de vassalagem: chefes locais mantidos no cargo, herdeiros educados na corte egípcia, guarnições em pontos estratégicos e portos…
- Localização
- Karnak e cidades vassalas do Levante
Levante e Síria - Dinastia
- XVIII Dinastia
- Governante
- Tutmés III
O Egito não instalou governadores próprios na maior parte do Levante. Preferiu contratos de lealdade jurados diante do rei, acompanhados de entrega periódica de bens que os textos chamam de inu: prata, cobre, cavalos, carros, tecidos, vinho, azeite e madeira de construção. Três centros de supervisão foram organizados, com sede em Gaza, na região de Cades e em Ugarite ou suas vizinhanças, sob a autoridade de um funcionário responsável pelas terras estrangeiras do norte. Guarnições pequenas e depósitos de suprimento nos portos da costa garantiam que a próxima campanha encontrasse comida e transporte disponíveis.
As campanhas estão datadas por ano de reinado, do vigésimo terceiro ao quadragésimo segundo, mas a gravação dos anais em Karnak foi feita em etapas, sem data própria. Como em todo o período, a passagem para o calendário atual admite variação próxima de uma década segundo a cronologia adotada.
c. 1450 a.C. Datação aproximada O jardim botânico de Karnak cataloga plantas estrangeiras Nas salas anexas ao Akhmenu, em Karnak, as paredes foram cobertas de plantas e animais gravados em relevo, apresentados como espécies encontradas nas terras de Retjenu. É o mais antigo repertório figurado de…
- Localização
- Templo de Amon em Karnak
Alto Egito - Dinastia
- XVIII Dinastia
- Governante
- Tutmés III
O Akhmenu, salão de festas erguido a leste do santuário principal de Karnak, recebeu no seu conjunto de câmaras um programa decorativo sem paralelo. Em vez das cenas habituais de oferenda, as paredes exibem fileiras de plantas com raiz, flor e fruto, além de aves, quadrúpedes e frutos isolados. Uma legenda declara que se trata do que a majestade encontrou na terra de Retjenu, designação egípcia da Síria e da Palestina, o que liga o conjunto às campanhas asiáticas. Estimativas correntes apontam cerca de duas centenas e meia de espécies representadas.
As salas fazem parte do Akhmenu, cuja construção é situada no fim do reinado de Tutmés III, sem data de dedicação preservada. A cronologia do Novo Império é a mais segura do Egito faraônico, mas as datas absolutas continuam a divergir cerca de dez anos entre as reconstruções alta e baixa.
c. 1440 a.C. Datação em debate O apagamento dos monumentos de Hatshepsut Nomes cinzelados, figuras substituídas, estátuas quebradas e enterradas em fossos, obeliscos ocultados por alvenaria: a memória monumental de Hatshepsut foi removida de forma seletiva. A cronologia do…
- Localização
- Deir el-Bahari e Karnak
Alto Egito - Dinastia
- XVIII Dinastia
- Governante
- Tutmés III
A intervenção não foi uniforme. Em Deir el-Bahari e em Karnak, os cartuchos e as imagens da soberana com insígnias reais foram removidos, enquanto representações dela como esposa real ou como Esposa Divina de Amon muitas vezes permaneceram intactas. Os nomes suprimidos foram frequentemente substituídos por aqueles de Tutmés I, Tutmés II e Tutmés III. A Capela Vermelha, santuário de quartzito construído por ela, foi desmontada e seus blocos reaproveitados como enchimento no terceiro pilone. Estátuas foram derrubadas, fragmentadas e lançadas em fossos perto do templo, onde escavações do século XX as recuperaram e permitiram remontar várias peças.
O exame das superfícies marteladas e das camadas de reconstrução indica que a remoção começou por volta do ano quarenta e dois de Tutmés III, isto é, cerca de vinte anos depois da morte da soberana, e prosseguiu no reinado seguinte. Além dessa dúvida sobre o momento inicial, vale a margem de aproximadamente dez anos entre a cronologia alta e a baixa do Novo Império.
c. 1400 a.C. Datação aproximada A Estela do Sonho e o primeiro restauro documentado Uma estela de granito instalada entre as patas da Esfinge conta que o príncipe adormeceu à sombra do monumento e ouviu o deus pedir que o livrasse da areia. O texto associa a limpeza do monumento à chegada ao…
- Localização
- Entre as patas da Grande Esfinge, em Gizé
Baixo Egito - Dinastia
- XVIII Dinastia
- Governante
- Tutmés IV
A laje foi feita a partir de um lintel retirado do templo funerário de Quéfren, mil e cem anos mais antigo, e colocada de pé contra o peito da escultura. O texto narra que o filho do rei, depois de caçar no deserto de Gizé, deitou-se à sombra da Esfinge ao meio-dia e recebeu em sonho a fala do deus Horemakhet, o Hórus do horizonte, que se dizia sufocado pela areia e prometia a realeza em troca da desobstrução. A parte final da inscrição está muito danificada, e a promessa em si depende de restituição, o que torna prudente falar de uma versão oficial e não de um registro literal.
O monumento traz o ano um do reinado de Tutmés IV, o que fixa a data relativa com segurança; a passagem para o calendário atual depende da cronologia escolhida, com diferença de cerca de dez anos entre as versões alta e baixa.
c. 1370 a.C. Datação aproximada O templo de Luxor e os Colossos de Mêmnon O reinado mais próspero da XVIII Dinastia ergueu em Luxor o santuário do sul, com colunata e pátio solar, e na margem oposta um templo funerário de dimensões enormes, guardado por dois colossos de quartzito de…
- Localização
- Luxor e Kom el-Hetan, em Tebas
Alto Egito - Dinastia
- XVIII Dinastia
- Governante
- Amenhotep III
O templo de Luxor, chamado Ipet-resyt, foi concebido para a festa de Opet, quando as imagens dos deuses de Karnak desciam em procissão até o santuário do sul. Suas salas internas trazem a sequência de relevos do nascimento divino do rei, em que Amon assume a forma do pai para gerar o herdeiro, tema já usado em Deir el-Bahari. A obra foi conduzida sob a supervisão do arquiteto Amenhotep, filho de Hapu, funcionário tão prestigiado que recebeu templo de culto próprio, e prosseguiu depois com a colunata concluída no reinado de Tutancâmon.
As obras se distribuem ao longo de um reinado de quase quatro décadas, sem que os monumentos permitam datar cada etapa. A posição do reinado é firme, apoiada em datas lunares e em cartas trocadas com Babilônia e Mitani, com a costumeira diferença de cerca de dez anos entre as cronologias em uso.
c. 1360 – 1330 a.C. Datação aproximada As cartas de Amarna revelam a diplomacia do Oriente Próximo Quase quatrocentas tabuinhas de barro escritas em cuneiforme acadiano formam o arquivo diplomático encontrado em Amarna. Nele se leem pedidos de ouro, negociações de casamento, queixas de vassalos sitiados e o…
- Localização
- Aquetáton, com correspondentes de Babilônia a Hatti
Mesopotâmia e Anatólia - Dinastia
- XVIII Dinastia
- Governante
- Amenhotep III
As tabuinhas vieram à luz em 1887, no edifício de Aquetáton identificado como repartição de correspondência do palácio, e hoje estão divididas entre coleções do Cairo, de Berlim, de Londres e de outras cidades. Dois grupos se distinguem. No primeiro, os grandes reis: Kadashman-Enlil e Burna-Buriash, da Babilônia; Tushratta, de Mitani; Suppiluliuma, de Hatti; Ashur-uballit, da Assíria; além dos governantes de Alashia, em Chipre, e de Arzawa. Eles se chamam de irmãos, cobram presentes prometidos, discutem dotes e reclamam de mensageiros retidos por tempo excessivo na corte egípcia.
O arquivo cobre pouco mais de três décadas e é, ele próprio, uma das principais âncoras da cronologia do Bronze Recente, por permitir o cruzamento entre reinados egípcios, hititas, assírios e babilônicos. Mesmo com esses sincronismos, subsiste divergência de cerca de dez anos entre as propostas alta e baixa.
c. 1346 a.C. Datação aproximada A reforma de Aton e a fundação de Aquetáton No quinto ano de reinado, o rei trocou o nome, transferiu a corte para um lugar sem culto anterior e impôs o serviço exclusivo do disco solar. Templos de outros deuses foram fechados, seus bens redirecionados…
- Localização
- Aquetáton, atual Amarna
Médio Egito - Dinastia
- XVIII Dinastia
- Governante
- Aquenáton
O culto do disco solar não era novidade: Aton aparece em textos desde o Médio Império e ganhou destaque já com Amenhotep III. A ruptura foi de outra ordem. O rei mandou construir em Karnak um santuário a céu aberto para Aton, o Gempaaton, feito com blocos pequenos de fácil manuseio, os talatate, e em seguida escolheu para nova capital uma planície na margem oriental do Nilo, delimitada por estelas gravadas na rocha que declaram o local como não pertencente a nenhum deus nem a nenhuma deusa. O nome adotado, Aquetáton, significa horizonte do disco solar, e o rei passou a chamar-se Aquenáton.
As estelas de limite da cidade datam a escolha do local do ano cinco do reinado, e a mudança de nome do rei ocorre no mesmo intervalo. Como o restante do período, as datas absolutas variam cerca de uma década conforme a cronologia adotada, apesar dos sincronismos com Hatti, a Assíria e a Babilônia.
c. 1345 a.C. Datação aproximada A arte de Amarna rompe o cânone milenar Crânios alongados, queixos salientes, ventres proeminentes e cenas de intimidade familiar substituíram o corpo idealizado da tradição. A grade de proporções foi refeita, e as oficinas de Aquetáton produziram…
- Localização
- Oficinas de Aquetáton
Médio Egito - Dinastia
- XVIII Dinastia
- Governante
- Aquenáton
A convenção egípcia representava o rei como jovem atlético, de proporções fixadas por uma grade de dezoito quadrados. Nos primeiros anos do reinado, essa grade foi substituída por outra, de vinte quadrados, e as figuras passaram a exibir cabeça alongada, feições estreitas, quadris largos e membros finos, tratamento aplicado ao rei, à rainha e às princesas. As cenas mudaram de assunto: o casal aparece abraçando as filhas, beijando-as, comendo em família, chorando em funeral, sempre sob os raios de Aton, e não mais em posturas de combate ou de oferenda solene.
O estilo evolui dentro do reinado, das figuras mais alongadas dos primeiros anos a formas mais contidas no fim, o que impede datar cada obra com precisão. As datas absolutas do reinado permanecem sujeitas à diferença de cerca de dez anos entre cronologia alta e baixa.
c. 1332 a.C. Datação aproximada Tutancâmon restaura os cultos tradicionais Um menino de cerca de nove anos subiu ao trono e, em poucos anos, os templos fechados voltaram a funcionar, as rendas foram devolvidas e o nome do rei passou de Tutankhaton a Tutancâmon. A Estela da…
- Localização
- Tebas e Mênfis
Alto Egito - Dinastia
- XVIII Dinastia
- Governante
- Tutancâmon
O texto da estela descreve santuários em ruína, pátios tomados por ervas, capelas transformadas em atalho e o país abandonado pelos deuses, que não atendiam mais a nenhum pedido. Em seguida enumera as medidas: reconstrução de imagens divinas em ouro e pedras finas, restituição de terras e de rendas aos templos, nomeação de novos sacerdotes escolhidos entre filhos de notáveis e retomada dos festivais. O documento foi encontrado em Karnak e teve depois o nome do rei substituído pelo de Horemheb, prática que dificultou por muito tempo a atribuição correta.
A Estela da Restauração não conserva número de ano legível, e a medida é situada nos primeiros anos do reinado pela mudança do nome do rei. As datas absolutas seguem a margem de cerca de dez anos que separa a cronologia alta da baixa no Novo Império.
c. 1320 a.C. Datação aproximada O decreto de Horemheb reorganiza a justiça e o fisco General que chegou ao trono sem herança dinástica, Horemheb gravou em Karnak um longo decreto contra abusos de cobradores e juízes. O texto proíbe requisições arbitrárias de barcos e couros, fixa penas severas…
- Localização
- Karnak, com aplicação em todo o país
Todo o Egito - Dinastia
- XVIII Dinastia
- Governante
- Horemheb
A estela foi erguida junto ao décimo pilone de Karnak e chegou incompleta, com lacunas extensas, mas o suficiente para reconstituir a lógica das medidas. Os casos descritos são concretos: agentes do fisco que tomavam embarcações de particulares para transporte oficial, funcionários que confiscavam couros destinados às oficinas de couro do palácio, soldados que se apropriavam de bens durante deslocamentos. Para cada abuso, o decreto indica a proibição e a punição, que em situações graves inclui mutilação e degredo para a guarnição de Tjaru, na fronteira nordeste do delta.
A estela que traz o texto está mutilada na parte da data, e a medida é situada no começo do reinado por argumentos internos. A margem habitual de cerca de dez anos entre as cronologias alta e baixa do Novo Império também se aplica aqui.