c. 1520 a.C. Datação aproximada
A vila de Deir el-Medina abriga os operários das tumbas reais
Em um vale fechado da margem ocidental de Tebas, a coroa instalou o povoado dos artesãos encarregados de escavar e decorar as tumbas reais. Cerca de setenta casas dentro de um muro, salários pagos em grão e milhares de anotações em lascas de cerâmica fazem dessa comunidade a mais bem documentada do Egito antigo.
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Contexto
Os moradores se identificavam como servidores do Lugar da Verdade e trabalhavam divididos em duas turmas, a da direita e a da esquerda, cada uma com um chefe, um subchefe e um escriba. O pagamento vinha do tesouro do templo funerário em atividade e consistia sobretudo em trigo emmer e cevada, entregues por mês em sacos, com porções maiores para os chefes e o escriba, além de peixe, verduras, lenha, cerveja, óleo e água trazida por burros, já que o vale não tem poço. Atrasos na entrega do grão paralisavam a vila e geraram registros de reclamação formal.
A vila produziu uma quantidade de escrita sem paralelo em qualquer outro povoado egípcio: cartas particulares, testamentos, contas de pintores, cópias de literatura clássica, desenhos de treino e o chamado diário da necrópole, que anotava dia a dia quem faltava ao trabalho e por quê. As justificativas incluem doença, cerveja a fabricar, mãe adoentada, embalsamamento de um parente e disputas domésticas. Parte considerável dos homens sabia ler e escrever, proporção incomum no país, e os habitantes recorriam ao oráculo do rei Amenhotep I, cultuado ali como patrono, para resolver litígios de propriedade e acusações de furto.
Sobre a datação
Tijolos com o selo de Amenhotep I e de Tutmés I situam a fundação no começo do século XVI a.C., embora o povoado só se torne bem documentado a partir da XIX Dinastia. As datas absolutas dependem da cronologia adotada, com diferença próxima de dez anos entre as versões alta e baixa.
Importância histórica
Deir el-Medina inverte a perspectiva usual sobre o Egito. Em vez de reis e deuses, ela mostra empréstimos entre vizinhos, dívidas de burros alugados, brigas de família, greve por atraso de rações e o vocabulário técnico de quem abria tumbas na rocha. Nenhum outro conjunto de documentos permite reconstruir com tal detalhe o orçamento, a rotina e as tensões de uma comunidade de trabalho na Antiguidade, e é dessa vila que vem grande parte do que se sabe sobre justiça cotidiana no Novo Império.
Consequências
- Garantiu por quatro séculos mão de obra especializada permanente para o Vale dos Reis e o Vale das Rainhas.
- Deixou o maior conjunto de documentos particulares conhecido de um povoado do Egito antigo.
- Registrou o funcionamento de tribunais locais e de consultas oraculares na resolução de conflitos.
- Documentou a dependência dos salários em grão e as crises provocadas por atrasos de entrega.
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