c. 1820 a.C. Datação aproximada
As obras hidráulicas do Faium ampliam a área cultivada
Não houve escavação de um grande lago artificial no Faium, como ainda se repete. O que os reis da XII Dinastia fizeram foi regular a entrada de água pelo canal Bahr Iússuf, controlando o nível de um lago que já existia e liberando terra fértil em suas margens.
Médio Império Agricultura Faium irrigação Bahr Iússuf Hauara
Contexto
A depressão do Faium fica a oeste do vale e recebia água por um braço natural do Nilo, o Bahr Iússuf, que alimentava um lago grande e raso. Antes de qualquer intervenção, esse lago subia e descia conforme a inundação, e a faixa alagável era instável. O trabalho da XII Dinastia consistiu em disciplinar a entrada: diques e um regulador na garganta por onde o canal penetra na depressão, perto de Lahun, mais canais internos para distribuir a água pelas terras baixas. Com a vazão sob controle, o nível do lago baixou e uma faixa considerável de solo aluvial ficou disponível para plantio, sem que nenhuma bacia tenha sido cavada.
A confusão veio de fora e muito depois. Viajantes gregos e romanos descreveram um imenso reservatório escavado por ordem de um rei que chamaram de Méris, e sua descrição foi lida por séculos como notícia de engenharia, quando era a interpretação de uma paisagem já modificada. Amenemhat III é o nome mais ligado à região: construiu sua pirâmide em Hauara, ao lado de um templo de planta labiríntica que os antigos consideravam um prodígio, e mandou erguer em Biahmu dois colossos sobre plataformas voltadas para a água. A colonização agrícola realmente massiva do Faium, com aldeias novas e canais adicionais, só aconteceria sob os Ptolomeus.
Sobre a datação
As intervenções se distribuem por mais de um reinado e não têm data de conclusão registrada. Como no restante do período, os anos absolutos vêm de observações lunares conservadas em arquivos e de sincronismos parciais, com folga de algumas décadas.
Importância histórica
O Faium é o caso mais claro de um Estado antigo alterando um sistema hídrico inteiro para produzir mais alimento, e faz isso sem grandes obras de alvenaria: bastaram diques, reguladores e canais bem colocados. O episódio serve também de exercício de leitura crítica, porque a versão do lago artificial nasceu de relatos de visitantes tardios e sobreviveu por dois milênios. O trabalho aproximou a produção agrícola da nova capital e criou a base que os períodos seguintes ampliariam.
Consequências
- Ampliou a área cultivável nas margens do lago sem criar uma bacia artificial.
- Estabilizou o nível da água por meio de diques e de um regulador na entrada do canal.
- Deixou em Hauara e Biahmu os monumentos que viajantes antigos descreveriam mais de mil anos depois.
- Preparou o terreno para a colonização agrícola de escala muito maior feita no período ptolemaico.
Acontecimentos relacionados
-
c. 1800 a.C. Médio Império
O papiro de Lahun e a medicina voltada às mulheres
Achado na cidade de trabalhadores de Lahun, um papiro do fim do Médio Império reúne cerca de trinta e quatro parágrafos com queixas femininas…
Medicina -
c. 1985 a.C. Médio Império
Amenemhat I funda Itjtauy e transfere o centro do poder
Amenemhat I chegou ao trono sem ascendência real e mudou a corte para uma cidade nova, Amenemhat-itj-tauy, junto à entrada do Faium. O povoado em si…
Administração -
c. 2200 – 2050 a.C. 1.º Intermediário
Uma sequência de inundações fracas atinge o vale
Sedimentos de lagos, camadas em cavernas e perfis do delta apontam uma fase mais seca no nordeste da África no fim do terceiro milênio. Registros…
Agricultura -
c. 100 d.C. Domínio romano
Os retratos do Faium unem duas tradições funerárias
Painéis pintados sobre madeira, com rostos de homens, mulheres e crianças, eram amarrados às ataduras das múmias no Faium e em Antinoópolis. Cada…
Arte