c. 1850 a.C. Datação aproximada
Senusret III desmonta o poder dos governadores provinciais
Durante o reinado de Senusret III, as grandes tumbas dos governadores de província deixaram de ser construídas e o governo passou a operar por departamentos regionais subordinados ao vizir. Foi um processo de décadas, e a versão de um decreto único que aboliu os cargos não se sustenta.
Médio Império Administração administração governadores vizirato departamentos
Contexto
A mudança é percebida sobretudo pelo que desaparece. Em Beni Hassan, Qau, Meir e Deir el-Bercha, as sepulturas monumentais de governadores param de ser abertas; no lugar delas, multiplicam-se estelas de funcionários em Abidos, com títulos que remetem a repartições centrais e não a províncias. O país foi organizado em três grandes departamentos, o do norte, o do sul e o da região da capital, cada um com seus relatores, escribas e conselhos, todos respondendo ao vizir. Carreiras passaram a ser feitas na corte, por nomeação, em vez de herdadas dentro de uma família provincial. Se isso foi decisão deliberada do rei ou resultado acumulado de mudanças no recrutamento é ponto ainda discutido.
O que não está em dúvida é o volume de papel que esse aparelho produzia. Os despachos de Semna, escritos numa fortaleza a centenas de quilômetros da capital, foram copiados e arquivados longe do lugar onde nasceram, prova de que relatórios de rotina subiam a cadeia de comando e eram guardados. Os arquivos da cidade de Lahun mostram o mesmo em escala local: contas, escalas de serviço no templo, cartas, listas de pessoal. Foi essa engrenagem escrita, e não o carisma dos reis, que manteve o Egito funcionando quando a realeza se fragmentou em reinados curtíssimos, poucas décadas depois.
Sobre a datação
Este reinado é o mais bem amarrado do período, porque um arquivo de templo em Lahun conservou datas lunares e a observação do surgimento de uma estrela; mesmo assim, a leitura desses dados admite duas soluções distantes cerca de trinta e cinco anos.
Importância histórica
A reorganização criou a burocracia profissional que sustentou o Estado egípcio muito além da dinastia que a montou: viziers e escribas continuaram a administrar o país durante a sucessão de reis efêmeros que veio depois. Ela também alterou o modo como a elite se representava, deslocando o prestígio da província para o serviço na corte, com efeito direto sobre a arquitetura funerária. Como toda leitura baseada em ausência de monumentos, exige cautela, mas a direção da mudança é clara.
Consequências
- Concentrou nomeações e carreiras na corte, encerrando a transmissão hereditária dos governos de província.
- Repartiu o território em três departamentos regionais respondendo diretamente ao vizir.
- Multiplicou os arquivos escritos, dos quais os despachos de Semna e os papiros de Lahun são os restos mais completos.
- Garantiu continuidade administrativa quando a realeza entrou em instabilidade, na XIII Dinastia.
Acontecimentos relacionados
-
c. 1860 a.C. Médio Império
A linha de fortalezas da Segunda Catarata
A militarização da Baixa Núbia foi feita por etapas: Buhen e outros postos no início da XII Dinastia e, sob Senusret III, o grupo de Semna, Cumma e…
Guerras -
c. 1900 a.C. Médio Império
As tumbas de Beni Hassan retratam o cotidiano provincial
Escavadas na encosta calcária do nomo do Órix, as tumbas dos governadores de Beni Hassan guardam cenas de colheita, tecelagem, fundição de metal…
Vida cotidiana -
c. 1800 a.C. Médio Império
O papiro de Lahun e a medicina voltada às mulheres
Achado na cidade de trabalhadores de Lahun, um papiro do fim do Médio Império reúne cerca de trinta e quatro parágrafos com queixas femininas…
Medicina -
c. 1320 a.C. Novo Império
O decreto de Horemheb reorganiza a justiça e o fisco
General que chegou ao trono sem herança dinástica, Horemheb gravou em Karnak um longo decreto contra abusos de cobradores e juízes. O texto proíbe…
Administração