c. 537 d.C. Datação aproximada
O fechamento de Filas encerra os cultos antigos
Por ordem de Justiniano, um comandante enviado à Primeira Catarata encerrou o santuário de Ísis, confiscou as imagens de culto e prendeu os sacerdotes. O edifício foi convertido em igreja, e com ele terminou o último culto de tradição faraônica ainda em atividade.
Domínio romano Mudanças religiosas Filas Ísis Justiniano fronteira núbia
Contexto
Filas resistiu mais do que os outros santuários por razão diplomática. A ilha ficava na fronteira sul, e o culto de Ísis atendia também os blêmios e os nobades, povos da Núbia com quem o império mantinha acordos. Um tratado firmado em 452 lhes garantia o direito de conduzir a imagem da deusa em procissão até seu próprio território, e enquanto essa cláusula servisse à estabilidade da fronteira o templo permaneceu aberto, mesmo depois de a legislação imperial ter proibido os cultos não cristãos.
O relato do fechamento vem de Procópio, cronista do reinado, segundo o qual Justiniano encarregou um comandante de encerrar o santuário: as imagens de culto foram levadas para a capital, e os sacerdotes, presos. A sala hipostila foi transformada em igreja dedicada a Santo Estêvão, com inscrições gravadas nas colunas e cruzes abertas sobre relevos antigos. A ilha continuou habitada por séculos. Já no século XX, a construção da primeira barragem em Assuã submergiu o conjunto durante boa parte do ano, e os edifícios só voltaram a ficar visíveis depois de desmontados e reerguidos na ilha vizinha de Agilkia, na década de 1970.
Sobre a datação
O episódio é conhecido pelo relato de Procópio, que não fornece data exata. Os estudos costumam situá-lo entre 535 e 537, durante o reinado de Justiniano.
Importância histórica
O episódio marca o ponto final de uma prática religiosa documentada de forma contínua desde o quarto milênio antes da era comum, o que faz dele um dos limites convencionais da história do Egito antigo. Também ilustra como a política de fronteira podia contrariar a lei geral do império: enquanto o acordo com os povos do sul teve utilidade, o santuário funcionou; quando deixou de tê-la, foi fechado por decisão administrativa, sem que houvesse resistência registrada.
Consequências
- Encerrou o funcionamento do último santuário de culto egípcio tradicional.
- Transferiu imagens de culto para a capital imperial, onde seu rastro se perdeu.
- Converteu parte do templo em igreja, o que ajudou a preservar a estrutura.
- Fechou um ciclo de mais de três milênios de atividade religiosa documentada no vale.
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