394 d.C. Datação estabelecida
A última inscrição hieroglífica é gravada em Filas
Em 24 de agosto de 394, um sacerdote gravou no templo de Ísis, em Filas, algumas linhas em hieróglifos acompanhadas de texto em demótico. É o registro datado mais recente que se conhece dessa escrita, usada de forma contínua por mais de três milênios.
Domínio romano Escrita Filas hieróglifos demótico casa de vida
Contexto
A inscrição é obra de Esmet-Akhom, integrante de uma família sacerdotal ligada ao santuário, e acompanha a figura de Mandúlis, divindade cultuada na região da Primeira Catarata. Traz data precisa e vem seguida de linhas em demótico, a escrita cursiva usada no cotidiano dos últimos séculos. Convém ser exato quanto ao alcance do fato: não se trata necessariamente do último ato de escrita hieroglífica, e sim do exemplo datado mais recente que sobreviveu. Textos posteriores sem data, ou simplesmente perdidos, não podem ser descartados. No mesmo templo está também o registro demótico datado mais tardio de que se tem notícia, do ano 452.
A extinção da prática tem explicação institucional. Ler e traçar hieróglifos era ofício de um número reduzido de famílias formadas nas casas de vida dos templos, mantidas por rendas fundiárias e doações. Quando essas rendas foram suprimidas e os santuários deixaram de funcionar, a cadeia de ensino se rompeu em uma ou duas gerações. O resultado foi a perda da chave de leitura: autores tardios passaram a descrever os sinais como imagens simbólicas, desprovidas de valor sonoro, e essa interpretação orientou os estudos europeus por mais de mil anos.
Importância histórica
O fim dessa escrita não apagou apenas um repertório de sinais: tornou mudos os monumentos que cobriam o país inteiro. Durante catorze séculos, quem esteve diante de um templo egípcio viu imagens sem conseguir extrair delas uma única frase, e o que se dizia sobre o passado do vale dependia de autores gregos e romanos. Recuperar o acesso direto a esses textos exigiu um trabalho de decifração que só teria êxito no começo do século XIX.
Consequências
- Encerrou o registro datado de uma escrita empregada desde o quarto milênio antes da era comum.
- Interrompeu a formação de escribas capazes de ler os textos dos templos.
- Deixou os monumentos egípcios ilegíveis para os séculos seguintes.
- Tornou necessária uma decifração conduzida mil e quatrocentos anos mais tarde.
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