Bloco 11 de 12 · 30 a.C. – 641 d.C.
Domínio romano
Anexado por Otaviano em 30 a.C., o Egito torna-se província pessoal do imperador e principal fornecedor de cereais de Roma. A religião tradicional convive por séculos com novos cultos até ser suplantada pelo cristianismo; o encerramento dos últimos templos marca o fim de uma tradição escrita de mais de três mil anos.
10 acontecimentos Província romana e bizantina
Uma província que não é senatorial
Otaviano organiza o Egito como possessão direta do princeps. Um prefeito da ordem equestre governa a partir de Alexandria; senadores precisam de autorização para entrar. O motivo é explícito nas fontes romanas: quem controla o trigo do Nilo controla a paz em Roma. A moeda, as legiões e o censo passam ao padrão imperial, mas os templos continuam a gravar o retrato do imperador com a titulatura de faraó. Cleópatra e Cesarião desaparecem do cálculo dinástico; o que resta da casa ptolemaica é o aparato administrativo que o prefeito herda e não dissolve.
Adriano viaja pelo país, funda Antinoópolis em memória de Antínoo e deixa um rastro de cidades, retratos e cultos gregos no Médio Egito. A administração provincial é densa e papirácea: petições, recibos, contratos e correspondência oficial sobrevivem em milhares de fragmentos. O Egito romano é, para a história social do Mediterrâneo, o arquivo mais rico que a Antiguidade deixou.
O celeiro, o papiro e a aldeia que escreve
A anona de Roma depende das colheitas do vale. Canais, diques e a medição da cheia continuam a ser ofício de Estado, agora em nome do prefeito. Navios de cereal saem de Alexandria com prioridade sobre qualquer outra carga, e a falta de uma safra se sente nas ruas da capital imperial. O papiro egípcio abastece a burocracia. Os papiros de Oxirrinco, extraídos do lixo de uma cidade do Médio Egito, revelam aluguéis, processos, convites de jantar, contratos de amas e cópias de autores gregos ao lado de contas de trigo.
A população mistura nomes latinos, gregos e egípcios. Veteranos recebem terras; judeus, gregos e egípcios disputam estatuto jurídico em Alexandria, com episódios de violência urbana bem documentados. O campo, sobretudo no Alto Egito, muda mais devagar. A unidade da província é fiscal, não cultural.
Retratos de cera, tetos de Dendera e o último hieróglifo
Os retratos do Faium, pintados em cera ou têmpera sobre madeira e fixados sobre múmias, unem o rosto helenístico ao corpo preparado à maneira egípcia. Dendera é concluída sob os imperadores, com o teto zodiacal e as capelas do teto que ainda hoje organizam a visita ao templo. O cristianismo se enraíza cedo: a tradição atribui a Marcos a comunidade de Alexandria, e a escola catequética da cidade torna-se um dos centros teológicos do Mediterrâneo.
No deserto, Antão e Pacômio organizam as primeiras comunidades monásticas, um modelo que atravessará o Império. Em 24 de agosto de 394, em Filas, é gravada a última inscrição hieroglífica datada que se conhece. Em 537, o templo de Ísis na mesma ilha é encerrado por ordem imperial. O demótico já havia recuado; o copta, o grego e o latim ocupam o espaço que a escrita dos templos deixa vazio.
O fim dos cultos e o que a arqueologia herdará
O encerramento de Filas não apaga de um dia para o outro o saber sacerdotal, mas corta as rendas que sustentavam as casas de vida. Sem escola, a escrita monumental deixa de se reproduzir. O país que os árabes encontram no século VII d.C. é cristão na maioria das aldeias, grego na administração urbana e egípcio na língua falada do sul. Os templos já são, em muitos casos, pedreiras ou igrejas.
Para este acervo, o domínio romano é o último bloco da história antiga e a véspera da redescoberta. Os objetos que a egiptologia estudará — múmias com retrato, papiros, templos inscritos, o próprio decreto de Mênfis — sobreviveram porque essa província continuou a produzir e a enterrar em grande volume, mesmo depois de ter deixado de ter um rei próprio.
Pontos em debate entre especialistas
- A data e as circunstâncias do encerramento definitivo de Filas variam nas fontes tardias; o acervo adota a faixa do século VI d.C. ligada à política religiosa de Justiniano, com a inscrição de 394 como último hieróglifo datado sobrevivente, não como prova de último ato absoluto.
- A correspondência entre os retratos do Faium e a identidade, a idade e o estatuto das pessoas mumificadas é limitada: a separação frequente entre painel e sepultura impede afirmações individuais seguras.
Percurso cronológico completo Largura proporcional à duração de cada bloco
Cronologia do período
10 acontecimentos entre 1798 d.C. – presente
Fichas em ordem cronológica. Abra qualquer uma para ver a localização, o governante e o contexto imediato.
30 a.C. Datação estabelecida Otaviano anexa o Egito como província imperial A queda de Alexandria, em 30 a.C., encerrou três séculos de governo ptolemaico e transformou o Egito em província romana. Otaviano reservou o território para si: em vez de entregá-lo ao Senado, nomeou um…
- Localização
- Alexandria
Baixo Egito - Dinastia
- Província romana e bizantina
- Governante
- Augusto
A anexação não exigiu a criação de uma máquina administrativa nova. Os Ptolomeus já haviam montado um sistema de cadastro de terras, arrendamento e cobrança em grão que Roma julgou eficiente o bastante para preservar quase intacto, trocando apenas o topo da hierarquia. Alexandria perdeu o conselho municipal que possuía sob os reis e ficou sob vigilância estreita, condição que só seria revista dois séculos depois. O primeiro prefeito, Caio Cornélio Galo, reprimiu levantes no Alto Egito e mandou gravar o relato de sua atuação em uma estela trilíngue erguida em Filas, gesto que lhe custaria o cargo e a vida.
c. 20 a.C. Datação aproximada O Egito se torna o celeiro de Roma Roma passou a depender das colheitas egípcias para alimentar sua população. Uma parcela expressiva do trigo consumido na capital saía todos os anos de Alexandria em comboios organizados pelo Estado, resultado…
- Localização
- Vale do Nilo, com embarque em Alexandria
Todo o Egito - Dinastia
- Província romana e bizantina
- Governante
- Augusto
O imposto fundiário do Egito era pago sobretudo em grão. Cada parcela cultivável estava registrada em cadastros que indicavam responsável, área e categoria de terra, e a cota devida variava conforme a altura da inundação medida nos nilômetros. A colheita recolhida se concentrava em celeiros de aldeia, era transferida para armazéns distritais e seguia em barcaças rio abaixo até Alexandria, de onde partia por mar rumo aos portos de Putéoli e, mais tarde, de Óstia.
A remessa anual de grão consolidou-se ao longo do principado de Augusto, sem marco inicial datado. A data indicada corresponde ao momento em que a frota de abastecimento já operava com regularidade.
c. 30 d.C. Datação aproximada Dendera é concluída sob administração romana O grande santuário de Hator, iniciado no fim do período ptolemaico, recebeu seu vestíbulo colunado já sob Roma, com o imperador esculpido como faraó diante dos deuses. Dendera mostra que a construção religiosa…
- Localização
- Dendera, no Alto Egito
Alto Egito - Dinastia
- Província romana e bizantina
- Governante
- Tibério
O templo dedicado a Hator começou a ser erguido no primeiro século antes da era comum e ganhou, sob administração romana, um vestíbulo de vinte e quatro colunas encimadas pelo rosto da deusa. O teto abriga uma das representações do céu mais completas conhecidas no Egito, com constelações, planetas e as divindades que marcavam os períodos de dez dias. De uma capela no terraço veio o relevo circular hoje conservado em Paris, retirado do edifício em 1821 e substituído por uma cópia.
O vestíbulo colunado leva o nome de Tibério, mas sua decoração prosseguiu nos reinados seguintes. Não há data única que marque a conclusão do conjunto.
c. 100 d.C. Datação aproximada Os retratos do Faium unem duas tradições funerárias Painéis pintados sobre madeira, com rostos de homens, mulheres e crianças, eram amarrados às ataduras das múmias no Faium e em Antinoópolis. Cada peça reúne a pintura de retrato de tradição greco-romana e o…
- Localização
- Hauara, Antinoópolis e o Faium
Médio Egito - Dinastia
- Província romana e bizantina
- Governante
- Não atribuído
O painel era pintado em madeira fina, com cera de abelha aquecida e pigmento ou com têmpera, e depois encaixado nas faixas de linho sobre o rosto do morto. O tratamento pictórico é o da tradição helenística: luz lateral, modelado do volume, olhar dirigido a quem observa. Penteados, barbas e joias acompanham a moda das cortes imperiais, o que permite datar boa parte das peças por comparação com bustos e moedas. Sob o painel, o corpo continuava a receber as substâncias de conservação e as fórmulas de proteção da tradição local, por vezes com máscara de estuque dourado sobre o peito.
A produção se estende de meados do primeiro século ao terceiro século d.C. A data indicada corresponde ao auge da prática, já que poucos painéis podem ser datados individualmente com precisão.
130 d.C. Datação estabelecida Adriano viaja pelo Egito e funda Antinoópolis Adriano percorreu o Egito com a corte no ano 130. Depois que Antínoo morreu afogado no Nilo, o imperador fundou no local uma cidade de estatuto grego, e o séquito deixou versos gravados na perna de um dos…
- Localização
- Antinoópolis e Colossos de Mêmnon
Médio Egito - Dinastia
- Província romana e bizantina
- Governante
- Adriano
A comitiva subiu o rio no verão e no outono daquele ano, com paradas em Alexandria, na franja do deserto ocidental e nas grandes cidades do vale. Em Tebas, antes do nascer do sol, o grupo foi ouvir o ruído emitido por uma das duas estátuas colossais de Amenhotep III, rachada por um terremoto séculos antes. Júlia Balbila, poetisa que acompanhava a viagem, mandou inscrever versos em grego na perna da estátua, e eles se somaram a mais de uma centena de inscrições deixadas por quem havia feito a mesma peregrinação. O fenômeno cessou depois que a estátua foi restaurada, já no início do século seguinte.
c. 150 d.C. Datação aproximada Os papiros de Oxirrinco revelam a vida na província Os montes de entulho de uma cidade do Médio Egito guardaram centenas de milhares de fragmentos escritos, do recibo de imposto à carta de família. É o retrato documental mais denso que sobreviveu de uma…
- Localização
- Oxirrinco, no Médio Egito
Médio Egito - Dinastia
- Província romana e bizantina
- Governante
- Não atribuído
A cidade ficava a oeste do braço principal do rio, em terreno seco o bastante para conservar folhas de papiro descartadas. Durante séculos, seus moradores jogaram fora contratos vencidos, minutas de repartição, exercícios escolares e correspondência inútil em depósitos de lixo na borda do povoado. Dois pesquisadores de Oxford começaram a escavá-los em 1896 e retiraram, em pouco mais de dez anos, um volume de material que nenhuma equipe conseguiu esgotar. A edição do acervo começou em 1898 e prossegue, volume após volume, com uma fração pequena do total publicada até agora.
Os documentos recuperados na cidade cobrem cerca de sete séculos de vida urbana. A data indicada situa o centro do conjunto, e não um acontecimento isolado.
c. 200 d.C. Datação aproximada O cristianismo se enraíza no Egito Ao longo do segundo e do terceiro séculos, comunidades cristãs se estabeleceram em Alexandria e nas cidades do vale. A produção intelectual da escola alexandrina e a passagem das escrituras para a língua…
- Localização
- Alexandria e vale do Nilo
Baixo Egito - Dinastia
- Província romana e bizantina
- Governante
- Não atribuído
Os indícios mais antigos são fragmentos de escritos cristãos achados em cidades do interior e atribuídos ao segundo século pela comparação do traçado das letras, o que indica difusão precoce fora da capital. A tradição registrada por Eusébio de Cesareia atribui a fundação da comunidade alexandrina ao evangelista Marcos, mas não há documentação contemporânea que a confirme, e a lista dos primeiros bispos é conhecida somente por fontes posteriores. Certificados de sacrifício expedidos durante a perseguição ordenada por Décio, em meados do terceiro século, sobreviveram entre os documentos da província e mostram a nova religião já suficientemente difundida para exigir controle administrativo.
As primeiras comunidades cristãs egípcias não deixaram registro datado de fundação. A data indicada marca o período em que sua presença se torna documentada tanto em Alexandria quanto no interior.
c. 320 d.C. Datação aproximada O monaquismo nasce no deserto egípcio O afastamento de cristãos para o deserto, primeiro como eremitas isolados e depois em comunidades organizadas, começou no Egito e se difundiu pelo mundo cristão. Pacômio redigiu a primeira regra de vida em…
- Localização
- Deserto oriental e Tebaida
Deserto Oriental e Mar Vermelho - Dinastia
- Província romana e bizantina
- Governante
- Não atribuído
A prática começou de forma individual. Cristãos deixavam as aldeias do vale e se instalavam na franja desértica, em cavernas ou celas isoladas, sustentando-se com trabalho manual e recebendo quem procurava conselho. Antão, camponês do Médio Egito, seguiu esse caminho por volta do fim do terceiro século e retirou-se para a montanha próxima ao Mar Vermelho. A biografia que lhe dedicou Atanásio, bispo de Alexandria, circulou em grego e em latim e transformou sua trajetória em modelo imitado na Palestina, na Itália e na Gália.
As datas da retirada de Antão e da fundação das primeiras comunidades dependem de relatos escritos décadas depois dos fatos. O intervalo indicado reúne as estimativas aceitas pela maior parte dos estudos.
394 d.C. Datação estabelecida A última inscrição hieroglífica é gravada em Filas Em 24 de agosto de 394, um sacerdote gravou no templo de Ísis, em Filas, algumas linhas em hieróglifos acompanhadas de texto em demótico. É o registro datado mais recente que se conhece dessa escrita, usada de…
- Localização
- Templo de Ísis, na ilha de Filas
Alto Egito - Dinastia
- Província romana e bizantina
- Governante
- Teodósio I
A inscrição é obra de Esmet-Akhom, integrante de uma família sacerdotal ligada ao santuário, e acompanha a figura de Mandúlis, divindade cultuada na região da Primeira Catarata. Traz data precisa e vem seguida de linhas em demótico, a escrita cursiva usada no cotidiano dos últimos séculos. Convém ser exato quanto ao alcance do fato: não se trata necessariamente do último ato de escrita hieroglífica, e sim do exemplo datado mais recente que sobreviveu. Textos posteriores sem data, ou simplesmente perdidos, não podem ser descartados. No mesmo templo está também o registro demótico datado mais tardio de que se tem notícia, do ano 452.
c. 537 d.C. Datação aproximada O fechamento de Filas encerra os cultos antigos Por ordem de Justiniano, um comandante enviado à Primeira Catarata encerrou o santuário de Ísis, confiscou as imagens de culto e prendeu os sacerdotes. O edifício foi convertido em igreja, e com ele terminou o…
- Localização
- Ilha de Filas, na Primeira Catarata
Alto Egito - Dinastia
- Província romana e bizantina
- Governante
- Justiniano I
Filas resistiu mais do que os outros santuários por razão diplomática. A ilha ficava na fronteira sul, e o culto de Ísis atendia também os blêmios e os nobades, povos da Núbia com quem o império mantinha acordos. Um tratado firmado em 452 lhes garantia o direito de conduzir a imagem da deusa em procissão até seu próprio território, e enquanto essa cláusula servisse à estabilidade da fronteira o templo permaneceu aberto, mesmo depois de a legislação imperial ter proibido os cultos não cristãos.
O episódio é conhecido pelo relato de Procópio, que não fornece data exata. Os estudos costumam situá-lo entre 535 e 537, durante o reinado de Justiniano.