c. 1860 a.C. Datação aproximada
A linha de fortalezas da Segunda Catarata
A militarização da Baixa Núbia foi feita por etapas: Buhen e outros postos no início da XII Dinastia e, sob Senusret III, o grupo de Semna, Cumma e Uronarti, que fechava o desfiladeiro da Segunda Catarata e submetia a navegação a controle permanente.
Médio Império Guerras Núbia Semna Buhen fronteira
Contexto
Nada nesse sistema foi improvisado num só reinado. Senusret I mandou construir Buhen e reforçar a região das minas; ao longo de três gerações somaram-se Mirgissa, Askut e Shalfak; com Senusret III chegaram as posições do trecho encachoeirado, onde o rio se estreita entre rochas e podia ser vigiado de perto. As fortalezas eram de tijolo cru, com muralhas espessas, torres salientes, fossos secos, escadas cobertas descendo até a água e celeiros capazes de sustentar guarnições por meses. Duas estelas de fronteira colocadas em Semna, nos anos oito e dezesseis do reinado, fixam o limite meridional e proíbem a passagem de núbios para o norte, exceto por embarcação e para negociar no posto de Iken.
O funcionamento diário dessa fronteira é conhecido por um conjunto de cópias de relatórios militares, os despachos de Semna, preservados no verso de um papiro achado em Tebas e datados do terceiro ano de Amenemhat III. Neles, oficiais informam rastros encontrados no deserto, patrulhas enviadas, grupos de medjay que chegaram para trocar mercadorias e foram devolvidos, e fecham as mensagens dizendo que a fortaleza do rei está em ordem. É burocracia de posto avançado, e por isso mesmo o testemunho mais concreto do que essas muralhas faziam. Grande parte das ruínas ficou submersa depois da construção da represa de Assuã.
Sobre a datação
A data indica o auge de um programa iniciado gerações antes e ampliado por etapas. O ano absoluto vem do encadeamento entre datas lunares de arquivos administrativos e sincronismos parciais, que ainda admitem deslocamento de algumas décadas.
Importância histórica
Trata-se do primeiro sistema de fronteira em escala industrial documentado no vale do Nilo: obra pesada, guarnição permanente, controle de tráfego e correspondência arquivada. O conjunto garantia o acesso ao ouro da Núbia e submetia o comércio do sul a um único ponto de passagem. Os despachos de Semna acrescentam algo raro para a Antiguidade: a rotina escrita de soldados de baixa patente, e não apenas a versão comemorativa dos monumentos reais.
Consequências
- Colocou as rotas do ouro e o tráfego fluvial ao sul de Assuã sob controle militar egípcio.
- Criou postos com guarnições estáveis, famílias residentes e celeiros de longa duração.
- Produziu os despachos de Semna, base documental para o estudo da fronteira antiga.
- Foi abandonada na XIII Dinastia e ocupada em seguida pelo reino de Kerma.
Acontecimentos relacionados
-
c. 1850 a.C. Médio Império
Senusret III desmonta o poder dos governadores provinciais
Durante o reinado de Senusret III, as grandes tumbas dos governadores de província deixaram de ser construídas e o governo passou a operar por…
Administração -
c. 1650 a.C. 2.º Intermediário
Kerma domina a Núbia e pressiona a fronteira sul
Kerma não era periferia do Egito: era a capital de um Estado autônomo que controlava o Nilo médio, com templos monumentais de tijolo, oficinas…
Comércio -
c. 2290 a.C. Antigo Império
As viagens de Harkhuf abrem a rota para o sul
A fachada da tumba de Harkhuf, diante de Elefantina, narra quatro viagens ao país de Iam, além da Segunda Catarata, com trezentos burros carregados…
Comércio -
1960 – 1980 d.C. Descobertas
A campanha internacional que moveu os templos da Núbia
Para salvar os templos que o lago da represa de Assuã iria submergir, cerca de cinquenta países financiaram o desmonte e a remontagem de monumentos…
Arqueologia