c. 1650 a.C. Datação aproximada
Kerma domina a Núbia e pressiona a fronteira sul
Kerma não era periferia do Egito: era a capital de um Estado autônomo que controlava o Nilo médio, com templos monumentais de tijolo, oficinas, cemitérios reais de túmulos enormes e domínio sobre as rotas do ouro, do marfim e do gado.
Segundo Período Intermediário Comércio Kerma Cuxe ouro Núbia
Contexto
A cidade tinha muralhas com portas fortificadas, um recinto palaciano com sala de audiências, bairros de oficinas de bronze e de faiança, celeiros e dois grandes edifícios de tijolo cru de dimensões pouco comuns em qualquer lugar do vale, o maior deles um templo com paredes de vários metros de espessura. A leste, o cemitério reúne dezenas de milhares de sepulturas e, entre elas, túmulos reais cobertos por montículos de grande diâmetro, com capelas próprias e sepultamentos de servidores. Ao redor desses montículos foram depositados milhares de crânios de bovinos, sinal do lugar que o rebanho ocupava na riqueza e no ritual. A cerâmica de Kerma, de parede finíssima, com bordo negro e faixa prateada, está entre a melhor produzida no Nilo antigo.
A relação com o Egito mudou de mão. Quando as guarnições da Segunda Catarata foram abandonadas, Kerma ocupou as fortalezas e passou a empregar os egípcios que ali continuaram: um funcionário deixou em Buhen uma estela dizendo que construiu o templo a serviço do governante de Cuxe. O reino controlava a passagem do ouro, do marfim, do ébano, das resinas e do gado em direção ao norte, e cobrava por isso. A prova mais eloquente de seu peso político vem de fora: uma inscrição real tebana relata que o rei de Avaris enviou carta ao governante de Cuxe propondo ação conjunta contra Tebas, isto é, tratava-o como potência equivalente.
Sobre a datação
A fase mais poderosa do reino é delimitada por camadas de ocupação e por sepulturas, sem listas de governantes que permitam contagem de anos. As datas dependem de sincronismos com o Egito, cuja própria cronologia admite variação de décadas.
Importância histórica
Kerma desfaz a ideia de que o alto Nilo era apenas fornecedor de matéria-prima para o Egito. Era um Estado com capital, arquitetura monumental, artesanato de altíssimo nível e capacidade de projetar poder rio abaixo, capaz de aproveitar a fragmentação egípcia para expandir sua área de controle. Foi contra essa organização, e não contra tribos dispersas, que a XVIII Dinastia teve de conduzir campanhas repetidas antes de instalar um governo colonial na Núbia.
Consequências
- Assumiu o controle das fortalezas da Segunda Catarata deixadas pelos egípcios.
- Concentrou em Kerma o comércio de ouro, marfim, ébano e gado do Nilo médio.
- Foi tratado como aliado potencial pelos reis de Avaris contra Tebas.
- Obrigou o Novo Império a campanhas sucessivas e à criação de uma administração colonial no sul.
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