MamiAgency Linha do Tempo do Antigo Egito

Bloco 6 de 12 · c. 1777 – 1550 a.C.

Segundo Período Intermediário

Durante cerca de um século o norte do Egito é governado por dinastas de ascendência levantina instalados em Avaris, enquanto o sul permanece sob reis tebanos. O período não se reduz a uma ocupação: introduz o carro de guerra, o arco composto e uma cidade deltaica que muda o mapa do poder.

8 acontecimentos XIV Dinastia XV Dinastia XVI Dinastia XVII Dinastia

Avaris no delta e Tebas no vale

A comunidade levantina do delta oriental, visível já no Médio Império, torna-se base da XV Dinastia, conhecida pelas fontes egípcias como hicsos — "governantes de terras estrangeiras". Avaris, no braço pelusíaco, passa a funcionar como capital do norte, com palácio, porto e templos de formas sírio-palestinas ao lado de cultos egípcios. A XIV Dinastia, mal documentada, parece ter governado trechos do delta antes ou ao lado desse poder.

No sul, as XVI e XVII Dinastias mantêm Tebas e o Alto Egito. Seqenenré Taa inicia a guerra contra Avaris e morre com ferimentos de arma compatíveis com combate próximo. Camés leva a frota tebana rio abaixo até as imediações da capital hicso. Amósis, já no limiar do Novo Império, conclui a expulsão e funda a XVIII Dinastia. O período é curto; a documentação é desigual e concentrada nos dois polos.

Uma cidade portuária e uma fronteira sul sob pressão

Avaris cresce como entreposto. Cerâmica levantina, selos, armas e enterramentos com tradições do Oriente Próximo convivem com práticas egípcias. Casas de planta sírio-palestina, templos de planta diferente da egípcia e um palácio com frescos de estilo egeu mostram o grau de abertura da corte. O carro de guerra e o arco composto entram no país por esse contato; os tebanos os adotam e os usam, uma geração depois, contra a própria Avaris. Não há indício de que o delta tenha sido esvaziado de egípcios: o que muda é quem ocupa o palácio e quem cobra o porto.

Ao sul, Kerma domina a Núbia e pressiona a fronteira. As fortalezas da Segunda Catarata, construídas no Médio Império, perdem manutenção regular. O ouro, o gado e as rotas do sul passam a ser negociados em um tabuleiro de três jogadores: Avaris, Tebas e Kerma. Essa geometria explica por que a reunificação tebana precisou olhar para os dois eixos ao mesmo tempo.

Escrita, cálculo e um papiro copiado no norte

O papiro matemático de Rhind, datado do ano 33 de Apepi, mostra que a escola de escribas continuava ativa sob o governo hicso. O exemplar conservado foi comprado em Luxor no século XIX; o colofão data a cópia pelo reinado de Avaris, sem provar que o rolo tenha sido escrito lá. O conteúdo — frações, áreas, volumes, regra de três — é o saber prático do Estado, não uma novidade estrangeira.

A religião do período é menos visível em grandes templos do que em objetos de culto e em nomes teofóricos. Seth, associado ao delta oriental, ganha destaque em Avaris. Em Tebas, Amon permanece o deus dinástico. A coexistência desses cultos será reinterpretada depois, na propaganda da XVIII Dinastia, como contraste entre ordem e usurpação — leitura que o acervo trata como discurso posterior, não como descrição neutra do século.

A expulsão que inaugura o império

A vitória tebana não devolve o país ao Médio Império. Amósis herda o carro, o arco, a experiência de guerra no delta e a necessidade de vigiar o Levante de onde os hicsos haviam vindo. O Novo Império nasce dessa lição: a fronteira nordeste deixa de ser um muro e passa a ser uma zona de campanhas. Kerma, por sua vez, será absorvida nas décadas seguintes pelo avanço para o sul.

A cronologia absoluta oscila em torno de um século. As datas deste acervo seguem a faixa baixa mais usada nas sínteses recentes, com Sobekneferu e o crescimento de Avaris tratados como limiares, não como núcleo do bloco. O nome "hicsos" designa aqui a XV Dinastia e o poder de Avaris, não uma invasão em massa documentada na arqueologia do delta.

Pontos em debate entre especialistas

  • A natureza da tomada de poder hicso — infiltração gradual, golpe interno ou campanha — não é resolvida pela arqueologia de Avaris, que mostra continuidade populacional e mudança de elite.
  • A duração da XV Dinastia e a sincronia exata com os reis tebanos variam conforme as listas reais e os selos reais encontrados no Levante.

Cronologia do período

8 acontecimentos entre 1798 d.C. – presente

Fichas em ordem cronológica. Abra qualquer uma para ver a localização, o governante e o contexto imediato.

c. 1777 a.C. Datação aproximada Sobekneferu governa e encerra a XII Dinastia Filha de Amenemhat III, Sobekneferu assumiu o trono com titulatura real completa e governou pouco menos de quatro anos. Seu reinado fecha a XII Dinastia e é tomado aqui como limiar do longo intervalo de… Faraós XII Dinastia Sobekneferu Médio Egito
Localização
Itjtauy e Faium
Médio Egito
Dinastia
XII Dinastia
Governante
Sobekneferu

Sobekneferu governou por direito próprio, com os cinco nomes da titulatura real, combinando formas masculinas e femininas nos textos, sem se apresentar como regente de ninguém. Suas estátuas, encontradas sem cabeça na região do Faium e no delta oriental, mostram uma figura vestindo o saiote e o manto cerimoniais do rei sobre a roupa feminina, solução de compromisso que a arte egípcia inventou para o caso. Ela acrescentou construções ao complexo funerário do pai em Hauara, deixou obra em Heracleópolis e teve o nome preservado nas listas reais posteriores. Seu túmulo não foi identificado com segurança; a atribuição de uma das pirâmides inacabadas de Mazguna continua sem prova.

Uma lista real conservada em Turim atribui ao reinado três anos, dez meses e vinte e quatro dias, mas a posição desse intervalo no calendário absoluto depende das observações lunares e dos sincronismos parciais que ancoram todo o Médio Império, com margem de algumas décadas.

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c. 1720 a.C. Datação aproximada Avaris cresce como cidade levantina no delta As escavações de Tell el-Dabaa mostram um povoado fundado pela administração da XII Dinastia que, ao longo de gerações, se tornou uma cidade portuária de população majoritariamente levantina, com casas… Vida cotidiana XIV Dinastia Baixo Egito
Localização
Tell el-Dabaa, no delta oriental
Baixo Egito
Dinastia
XIV Dinastia
Governante
Não atribuído

As camadas mais antigas correspondem a um assentamento planejado com templo, obra do Estado egípcio no reinado de Senusret III, num ponto de fácil acesso ao mar. Sobre elas se acumulam níveis de arquitetura de tipo sírio, com casas organizadas em torno de uma sala central, e templos de planta em eixo quebrado, desconhecida no Egito. As sepulturas ficam dentro das áreas de moradia, e várias trazem burros depositados diante da entrada, prática funerária do Levante. Aparecem armas de tipo levantino, como machados de lâmina recortada e punhais de cinto, jarras cananeias, jarrinhas de cerâmica fabricadas localmente segundo modelos estrangeiros, importações de Chipre e rebanhos com predomínio de ovinos e caprinos sobre o gado.

A data marca uma fase de crescimento, não um acontecimento datável. A sequência de camadas do lugar é bem estabelecida, mas sua conversão em anos absolutos depende de amarras com a cronologia do Médio Império e com a do Levante, ambas com folga de décadas.

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c. 1650 a.C. Datação aproximada Os hicsos assumem o governo do norte Os chefes instalados em Avaris tomaram o poder sobre o norte do Egito e formaram a XV Dinastia. O termo hicsos vem de uma expressão egípcia para governante de terra estrangeira, e a tomada do poder foi o… Dinastias XV Dinastia Baixo Egito
Localização
Avaris e Mênfis
Baixo Egito
Dinastia
XV Dinastia
Governante
Não atribuído

A sequência dos fatos, tanto quanto se pode reconstruí-la, é esta: a linhagem que governava desde Itjtauy perdeu o controle de Mênfis e recuou para o sul, e a autoridade sobre o delta e o Médio Egito passou aos senhores de Avaris. Foram poucos reis, alguns com reinados longos, entre eles Khyan e Apepi. Adotaram a titulatura egípcia, empregaram escribas egípcios, mantiveram cultos e templos em funcionamento e cobraram tributo de Tebas em algum momento. Selos com o nome de Khyan aparecem de Creta à Anatólia, indício de uma rede comercial ativa. Achados recentes de lacres em Edfu sugerem que sua posição na sequência dinástica precisa ser revista, e a ordem dos reinados permanece em aberto.

A duração da dinastia é estimada em cerca de um século por listas reais e por resumos antigos, e sua ordem interna continua discutida. As datas absolutas seguem dependentes das mesmas âncoras lunares e sincronismos parciais usados para o Médio Império.

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c. 1650 a.C. Datação aproximada Kerma domina a Núbia e pressiona a fronteira sul Kerma não era periferia do Egito: era a capital de um Estado autônomo que controlava o Nilo médio, com templos monumentais de tijolo, oficinas, cemitérios reais de túmulos enormes e domínio sobre as rotas do… Comércio Núbia e Cuxe
Localização
Kerma, a montante da Terceira Catarata
Núbia e Cuxe
Dinastia
Anterior às dinastias
Governante
Não atribuído

A cidade tinha muralhas com portas fortificadas, um recinto palaciano com sala de audiências, bairros de oficinas de bronze e de faiança, celeiros e dois grandes edifícios de tijolo cru de dimensões pouco comuns em qualquer lugar do vale, o maior deles um templo com paredes de vários metros de espessura. A leste, o cemitério reúne dezenas de milhares de sepulturas e, entre elas, túmulos reais cobertos por montículos de grande diâmetro, com capelas próprias e sepultamentos de servidores. Ao redor desses montículos foram depositados milhares de crânios de bovinos, sinal do lugar que o rebanho ocupava na riqueza e no ritual. A cerâmica de Kerma, de parede finíssima, com bordo negro e faixa prateada, está entre a melhor produzida no Nilo antigo.

A fase mais poderosa do reino é delimitada por camadas de ocupação e por sepulturas, sem listas de governantes que permitam contagem de anos. As datas dependem de sincronismos com o Egito, cuja própria cronologia admite variação de décadas.

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c. 1640 a.C. Datação aproximada Carro de guerra e arco composto mudam a guerra no Egito Entre a XV e a XVIII Dinastias, o exército egípcio incorporou o carro leve de duas rodas, o arco composto, a espada curva e a armadura de escamas. A entrada desse equipamento acompanhou décadas de contato com… Guerras XV Dinastia Khyan Baixo Egito
Localização
Delta oriental e vale do Nilo
Baixo Egito
Dinastia
XV Dinastia
Governante
Khyan

O carro egípcio era uma plataforma leve: caixa aberta de madeira e couro sobre duas rodas de raios, primeiro quatro e depois seis, puxada por uma parelha de cavalos, com um condutor e um arqueiro. Servia para atirar em movimento, perseguir quem fugia e transportar o comando, e sua adoção exigia muito mais que a carroceria: criação de cavalos, forragem, cocheiros, veterinários, oficinas de rodas e eixos, peças de reposição. O arco composto, feito de camadas de madeira, chifre e tendão colados e amarrados, entregava alcance e penetração muito superiores ao arco de vara única, ao preço de fabricação lenta, custo alto e sensibilidade à umidade.

A adoção desse equipamento é um processo de gerações e não cabe em um ano nem em um reinado. A data serve de marca dentro do período, cujas balizas absolutas continuam apoiadas em registros lunares e em sincronismos parciais com o Oriente Próximo.

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c. 1555 a.C. Datação aproximada Seqenenré Taa inicia a guerra contra Avaris O rei tebano Seqenenré Taa rompeu a convivência com Avaris e levou tropas ao norte. Seu corpo apresenta fraturas de machado e cortes de lâmina na cabeça, e é sobretudo dessa evidência física que se reconstrói… Guerras XVII Dinastia Seqenenré Taa Alto Egito
Localização
Tebas e Médio Egito
Alto Egito
Dinastia
XVII Dinastia
Governante
Seqenenré Taa

Tebas governava então de Elefantina até as proximidades de Cusae, no Médio Egito, e convivia com o norte em arranjo que permitia comércio e pastagem de gado no delta. A família real tebana desse momento tem perfil incomum, com mulheres de peso político declarado, entre elas Tetisheri e Ahotep. O corpo de Taa, recuperado no esconderijo de múmias reais de Deir el-Bahari, apresenta pelo menos cinco lesões graves no crânio e no rosto, produzidas por armas de tipos diferentes, o que aponta para vários agressores. Exames recentes de imagem observaram ainda a posição rígida das mãos e sugeriram que estivessem imobilizadas, leitura que não é aceita por todos.

O reinado é curto e mal documentado, e sua data de fim é estimada a partir da contagem regressiva desde o início do Novo Império, ela própria fixada por observações lunares e sincronismos parciais que admitem alguns anos de variação.

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c. 1552 a.C. Datação aproximada Camés leva a frota tebana até Avaris No terceiro ano de seu reinado, Camés desceu o Nilo com uma frota, tomou Nefrúsi, devastou os arredores de Avaris e voltou sem tomar a cidade. O relato sobrevive em duas versões de uma inscrição real, uma… Guerras XVII Dinastia Camés Médio Egito
Localização
Nefrúsi, Cusae e cercanias de Avaris
Médio Egito
Dinastia
XVII Dinastia
Governante
Camés

O texto começa por uma cena de conselho: o rei diz aos seus notáveis que não aceita permanecer entre um senhor estrangeiro ao norte e um núbio ao sul, e os conselheiros recomendam prudência, lembrando que o acordo vigente lhes garante campos e pastagem no delta. O rei parte de todo modo. Nefrúsi, ao norte de Cusae, é tomada; a frota segue até as vizinhanças de Avaris, arrasa vinhedos e captura centenas de embarcações carregadas de madeira de cedro, óleos, resinas, bronze e machados. O tom é comemorativo, como em toda inscrição real, e a cidade em si resiste: a campanha rompe o equilíbrio, mas não decide a guerra.

A campanha é datada pelo terceiro ano de um reinado de poucos anos, imediatamente anterior ao Novo Império. Sua posição no calendário absoluto herda a margem das observações lunares e dos sincronismos parciais usados para fixar o período.

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c. 1550 a.C. Datação aproximada O papiro matemático de Rhind é copiado em Avaris Escrito pelo escriba Ahmés no ano trinta e três do rei Apepi, o documento declara ser cópia de um texto do tempo de Amenemhat III. Reúne mais de oitenta problemas resolvidos: divisão de pães, força da cerveja… Escrita XV Dinastia Apepi Baixo Egito
Localização
Avaris, com original do Médio Império
Baixo Egito
Dinastia
XV Dinastia
Governante
Apepi

A obra abre com uma tabela que converte a fração dois sobre um número ímpar em somas de frações de numerador um, ferramenta básica da aritmética egípcia, que só operava com partes unitárias. Vêm depois os problemas, na forma de enunciado, cálculo e verificação: repartir um número de pães entre trabalhadores em cotas desiguais, medir a força do pão e da cerveja pela quantidade de grão empregada, calcular ração de animais, resolver questões de quantidade desconhecida equivalentes a equações de primeiro grau, achar áreas de triângulos e de quadriláteros, calcular a área do círculo elevando ao quadrado oito nonos do diâmetro, obter o volume de celeiros cilíndricos e determinar a inclinação constante de uma face de pirâmide ou de uma rampa.

O manuscrito traz a data do ano trinta e três de Apepi, o que o situa no fim do domínio de Avaris; converter esse ano de reinado em data absoluta depende das âncoras lunares e dos sincronismos parciais que sustentam a cronologia do período.

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