c. 1473 a.C. Datação aproximada
Hatshepsut assume a realeza plena
Viúva de Tutmés II, Hatshepsut governou primeiro como regente do enteado criança e, entre o segundo e o sétimo ano desse reinado, adotou titulatura real completa. A solução manteve os dois nomes no trono e foi legitimada por relevos de nascimento divino e por oráculos de Amon.
Novo Império Faraós Hatshepsut corregência titulatura real Deir el-Bahari
Contexto
Filha de Tutmés I e esposa principal de Tutmés II, Hatshepsut acumulava o cargo sacerdotal de Esposa Divina de Amon quando o marido morreu deixando um herdeiro muito jovem. As primeiras inscrições da regência a apresentam como grande esposa real que administra o país em nome do menino. Nos anos seguintes, os epítetos mudam: ela recebe os cinco nomes da titulatura faraônica, entre eles o prenome Maatkaré, e passa a ser representada com o pano de cabeça, o saiote curto e, em parte das imagens, a barba cerimonial do ofício, sem que o gênero feminino desapareça dos textos, onde formas masculinas e femininas alternam.
A corregência não anulou o direito do enteado. Os documentos continuaram a datar os anos pelo reinado de Tutmés III, os dois nomes aparecem juntos em monumentos e o jovem rei foi formado no comando militar, que exerceria por décadas depois. A justificação foi construída por meios religiosos: nos pórticos de Deir el-Bahari, uma sequência de relevos narra a concepção da soberana por Amon junto à mãe Ahmés, e outra apresenta uma coroação decidida por oráculo do deus e confirmada pelo pai. Altos funcionários como o mordomo Senenmut e o vizir Hapuseneb sustentaram administrativamente o arranjo.
Sobre a datação
A passagem da regência à realeza é datada pelos anos de reinado de Tutmés III, que continuaram a ser contados durante toda a corregência, entre o ano dois e o ano sete. Convertida em datas absolutas, a transição varia cerca de dez anos segundo a cronologia adotada para o Novo Império.
Importância histórica
O caso de Hatshepsut interessa menos pela exceção do que pelo método. Diante de um herdeiro incapaz de governar, a corte não interrompeu a linhagem nem inventou um cargo novo: aplicou a corregência, técnica de sucessão já usada na XII Dinastia, e produziu o repertório de textos e imagens capaz de torná-la aceitável. O resultado foram duas décadas de estabilidade, expedições comerciais, obras monumentais e uma reserva de recursos que o sucessor empregaria nas campanhas asiáticas.
Consequências
- Manteve a contagem dos anos de reinado de Tutmés III durante toda a corregência.
- Produziu em Deir el-Bahari o programa de relevos de nascimento divino e coroação oracular.
- Elevou o cargo de Esposa Divina de Amon a instrumento de legitimação política.
- Sustentou vinte anos de investimento em templos, pedreiras e expedições sem conflito interno registrado.
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