c. 1440 a.C. Datação em debate
O apagamento dos monumentos de Hatshepsut
Nomes cinzelados, figuras substituídas, estátuas quebradas e enterradas em fossos, obeliscos ocultados por alvenaria: a memória monumental de Hatshepsut foi removida de forma seletiva. A cronologia do processo, décadas posterior à morte dela, é o principal argumento contra a leitura de vingança pessoal.
Novo Império Arte Hatshepsut damnatio Deir el-Bahari Capela Vermelha
Contexto
A intervenção não foi uniforme. Em Deir el-Bahari e em Karnak, os cartuchos e as imagens da soberana com insígnias reais foram removidos, enquanto representações dela como esposa real ou como Esposa Divina de Amon muitas vezes permaneceram intactas. Os nomes suprimidos foram frequentemente substituídos por aqueles de Tutmés I, Tutmés II e Tutmés III. A Capela Vermelha, santuário de quartzito construído por ela, foi desmontada e seus blocos reaproveitados como enchimento no terceiro pilone. Estátuas foram derrubadas, fragmentadas e lançadas em fossos perto do templo, onde escavações do século XX as recuperaram e permitiram remontar várias peças.
A datação é o ponto decisivo do debate. O estudo das superfícies e das sobreposições de relevo situa o início da remoção nos últimos anos de Tutmés III, quando ele já reinava havia mais de quatro décadas, e não no momento em que assumiu o governo sozinho. Entre as explicações em discussão estão o esforço de apresentar a sucessão como linha direta de pai para filho, em benefício do herdeiro Amenhotep II, e a intenção de eliminar da lista de reis o precedente de uma corregência feminina. Nenhuma dessas leituras é consensual, e a documentação disponível não permite decidir entre elas.
Sobre a datação
O exame das superfícies marteladas e das camadas de reconstrução indica que a remoção começou por volta do ano quarenta e dois de Tutmés III, isto é, cerca de vinte anos depois da morte da soberana, e prosseguiu no reinado seguinte. Além dessa dúvida sobre o momento inicial, vale a margem de aproximadamente dez anos entre a cronologia alta e a baixa do Novo Império.
Importância histórica
O caso é o exemplo mais estudado de manipulação da memória oficial no Egito antigo e serve de advertência metodológica: as listas reais e os monumentos não registram o passado, mas a versão dele que convinha a cada reinado. Como a remoção foi incompleta, a reconstituição posterior tornou-se possível, e a soberana voltou às cronologias modernas graças a nomes sobreviventes em blocos reaproveitados, a fragmentos de estátua e à leitura das superfícies retrabalhadas.
Consequências
- Retirou o nome da soberana das listas reais copiadas nos séculos seguintes.
- Levou ao desmonte da Capela Vermelha, cujos blocos foram reutilizados como enchimento em Karnak.
- Deixou os fossos de estátuas quebradas que permitiram remontagens no século XX.
- Tornou-se o principal caso de estudo sobre censura monumental na egiptologia.
Acontecimentos relacionados
-
c. 1473 a.C. Novo Império
Hatshepsut assume a realeza plena
Viúva de Tutmés II, Hatshepsut governou primeiro como regente do enteado criança e, entre o segundo e o sétimo ano desse reinado, adotou titulatura…
Faraós -
c. 1460 a.C. Novo Império
Os obeliscos de Karnak e as pedreiras de Assuã
Dois monólitos de granito extraídos em Assuã foram erguidos entre o quarto e o quinto pilone de Karnak. O que permanece de pé tem quase trinta metros…
Construções -
c. 1346 a.C. Novo Império
A reforma de Aton e a fundação de Aquetáton
No quinto ano de reinado, o rei trocou o nome, transferiu a corte para um lugar sem culto anterior e impôs o serviço exclusivo do disco solar…
Mudanças religiosas -
1881 d.C. Descobertas
O esconderijo de múmias reais de Deir el-Bahari é revelado
Um poço estreito na encosta de Deir el-Bahari guardava cerca de cinquenta corpos e caixões retirados das tumbas reais por sacerdotes tebanos. O…
Arqueologia