Bloco 8 de 12 · c. 1069 – 664 a.C.
Terceiro Período Intermediário
Com a monarquia enfraquecida, o Egito passa a ser governado ao mesmo tempo por reis no delta e por uma administração sacerdotal em Tebas. Dinastas de origem líbia, cidades autônomas e, por fim, os reis cuxitas de Napata compõem um cenário fragmentado e de grande vitalidade religiosa.
10 acontecimentos XXI Dinastia XXII Dinastia XXIII Dinastia XXIV Dinastia XXV Dinastia
Tânis, Tebas e o poder que já não cabe em um só palácio
Smendes funda a XXI Dinastia em Tânis, no delta oriental, reaproveitando pedra e estátuas de Pi-Ramsés. Em Tebas, Herihor e seus sucessores governam como sumos sacerdotes de Amon, datando documentos pela era da Repetição dos Nascimentos enquanto o rei do norte permanece a referência nominal. A divisão é administrativa e geográfica, não uma guerra permanente: o país funciona em dois centros que se reconhecem e se vigiam.
A XXII Dinastia, de origem líbia, se instala em Bubástis e, com Sesonquis I, reunifica temporariamente o território e campanha no Levante. A XXIII e a XXIV Dinastias fragmentam de novo o delta em casas rivais. Pie, rei de Cuxe, desce o Nilo, vence os dinastas locais e instala a XXV Dinastia, que goverda o Egito a partir de uma dupla base: Napata, a montante da Quarta Catarata, e as cidades do norte que aceitam o novo arranjo.
Um comércio que já não impõe, e um tesouro que se esconde
A viagem de Unamon a Biblos, narrada em um relato do início do período, mostra um emissário tebano que precisa negociar madeira sem o prestígio que o Novo Império dava por certo. O rei de Biblos trata o egípcio como cliente, não como suserano. O episódio é literário, mas o cenário que descreve — portos do delta sob Smendes, Amon como financiador da missão, o rei nominal distante — coincide com a divisão do poder.
Em Tebas, os sacerdotes reúnem as múmias reais em esconderijos para protegê-las do saque. O equipamento de metal precioso não acompanha os corpos. Em Tânis, a sepultura de Psusenes I, encontrada no século XX com máscara e sarcófagos de prata, mostra que o norte ainda acumulava ourivesaria de alto nível. A riqueza não desaparece: ela se desloca e se esconde.
Amon, a Esposa Divina e o retorno arcaizante de Cuxe
O cargo de Esposa Divina de Amon concentra em Tebas um poder feminino com terras, clero e capacidade de adoção sucessória. As titulares da XXV e do início da XXVI Dinastia tornam-se peças centrais da política tebana, às vezes mais estáveis do que os reis do delta. O culto de Amon, que no Novo Império sustentava o império, passa a sustentar um Estado sacerdotal.
Os reis cuxitas se apresentam como restauradores da ordem antiga: pirâmides em Napata e depois em Meroé, títulos completos, tesouros oferecidos a Amon. A arte do período combina essa retórica arcaizante com traços núbios de retrato. Sesonquis I, uma geração antes, já havia usado Karnak para gravar sua campanha levantina. A pedra dos templos continua sendo o lugar onde se afirma o direito de governar, mesmo quando esse direito está dividido.
A Assíria chega e Sais se prepara
A participação egípcia na coalizão contra a Assíria em Carcar, no século IX a.C., ainda é um gesto de potência residual. Dois séculos depois, as campanhas assírias alcançam o vale, saqueiam Tebas e expulsam os reis cuxitas. Psamético I, dinasta de Sais apoiado no início pelos assírios, reunificará o país no período seguinte e romperá essa tutela. O Terceiro Período Intermediário termina quando Sais deixa de ser mais uma casa do delta e passa a ser a capital de um Egito único.
O legado é uma geografia política nova: o centro de gravidade fica no delta, Tebas torna-se um polo religioso autônomo, e Cuxe entra na história egípcia como dinastia, não apenas como fronteira. A fragmentação, vista de perto, foi também o modo pelo qual o país absorveu populações líbias e núbias sem deixar de se escrever em hieróglifos e de enterrar seus mortos à maneira antiga.
Pontos em debate entre especialistas
- A correspondência entre a campanha de Sesonquis I gravada em Karnak e a tradição hebraica posterior sobre um ataque a Jerusalém é discutida; as listas toponímicas não resolvem a identificação de todas as cidades.
- A cronologia interna das dinastias paralelas do delta (XXII a XXIV) varia conforme se tratam certos reis como contemporâneos ou sucessivos.
Percurso cronológico completo Largura proporcional à duração de cada bloco
Cronologia do período
10 acontecimentos entre 1798 d.C. – presente
Fichas em ordem cronológica. Abra qualquer uma para ver a localização, o governante e o contexto imediato.
c. 1080 a.C. Datação aproximada Herihor divide o poder e Tebas passa ao clero de Amon Sumo sacerdote de Amon, general e vice-rei de Cuxe, Herihor passou a escrever seu nome em cartelas reais nas paredes do templo de Khonsu, em Karnak, enquanto Ramsés XI continuava a ser o rei pelo qual se…
- Localização
- Karnak e Tebas
Alto Egito - Dinastia
- XX Dinastia
- Governante
- Herihor
O acúmulo de cargos explica o que aconteceu. Desde o reinado de Ramsés III, o templo de Amon controlava terras, rebanhos, oficinas e frotas em escala comparável à do próprio Estado, e no fim da XX Dinastia o pontificado tebano passou a somar o comando militar do Alto Egito e a autoridade sobre a Núbia. Herihor reuniu essas funções e adotou parte da titulatura reservada aos faraós, com o nome inscrito em cartela e representações em tamanho real ao lado dos deuses, sem nunca reivindicar o trono no delta.
A datação depende da correlação entre os anos da era chamada Repetição dos Nascimentos e o reinado de Ramsés XI. A ordem entre Herihor e o pontífice Piankh no comando de Tebas foi revista pela pesquisa recente e continua discutida.
c. 1075 a.C. Datação aproximada A viagem de Unamon expõe o declínio do prestígio egípcio Enviado de Tebas para comprar madeira de cedro destinada à barca de Amon, Unamon foi assaltado em Dor, esperou meses em Biblos e ouviu do príncipe local que o Egito precisaria pagar pelo que antes recebia por…
- Localização
- Biblos, Dor e a costa fenícia
Levante e Síria - Dinastia
- XX Dinastia
- Governante
- Ramsés XI
O documento chegou até nós em um papiro encontrado em el-Hibeh, no Médio Egito, e narra em primeira pessoa a missão de um funcionário do templo de Amon. Unamon parte com pouca prata e uma imagem portátil do deus, é roubado no porto de Dor, discute compensações, chega a Biblos e é mantido à espera pelo príncipe Zacarbaal. Quando finalmente é recebido, ouve que os antepassados do príncipe forneciam madeira porque eram pagos, e não porque devessem obediência, e que os registros do arquivo local comprovavam os pagamentos.
O relato usa o quinto ano de uma era contada em Tebas, e não um ano de reinado, o que deixa margem de alguns anos na conversão para datas absolutas.
c. 1069 a.C. Datação aproximada Smendes funda a XXI Dinastia em Tânis Com a morte de Ramsés XI, Smendes assumiu o governo do norte a partir de Tânis e fundou a XXI Dinastia. A nova capital foi erguida em boa parte com pedra retirada de Pi-Ramsés, abandonada porque o braço do…
- Localização
- Tânis, no delta oriental
Baixo Egito - Dinastia
- XXI Dinastia
- Governante
- Smendes
A mudança de capital foi ditada pela hidrografia. Pi-Ramsés dependia de um braço pelusíaco que assoreou, deixando a cidade sem porto e sem água corrente suficiente. Tânis, mais ao norte, ficava sobre um ramo ativo, e para lá foram levados obeliscos, colunas, portais e estátuas dos monumentos ramessidas, reempregados em templos novos dedicados a Amon, Mut e Khonsu, à maneira do santuário de Karnak. O resultado é um lugar em que quase toda pedra inscrita carrega o nome de um rei anterior.
A data corresponde à morte de Ramsés XI segundo a cronologia mais aceita; a duração de vinte e seis anos atribuída a Smendes vem da tradição de Manetão e não é confirmada por documentos contemporâneos.
c. 1000 a.C. Datação aproximada Os sacerdotes escondem as múmias reais Diante dos arrombamentos no Vale dos Reis, os sacerdotes de Amon retiraram os corpos dos faraós de suas tumbas, renovaram o enfaixamento e reuniram-nos em poucos esconderijos vigiados. Cada etapa da operação…
- Localização
- Deir el-Bahari e Vale dos Reis
Alto Egito - Dinastia
- XXI Dinastia
- Governante
- Operação conduzida pelos sumos sacerdotes de Amon, entre eles Pinedjem I e Pinedjem II
A decisão veio depois de décadas de saques documentados em processos judiciais. Equipes autorizadas abriram as sepulturas reais, recolheram os corpos, refizeram o enfaixamento quando necessário, substituíram caixões danificados e transferiram tudo para locais de acesso mais fácil de controlar. Os dois principais foram uma tumba de família sacerdotal em Deir el-Bahari e uma câmara lateral da sepultura de Amenhotep II, no Vale dos Reis. Ali acabaram reunidos, entre outros, Amósis, Amenhotep I, Tutmés II, Tutmés III, Seti I, Ramsés II e vários reis da XX Dinastia.
Os deslocamentos ocorreram ao longo de mais de um século, entre o fim da XX Dinastia e a XXI. A data indicada corresponde à fase mais intensa da operação, tal como reconstituída pelas anotações datadas.
c. 991 a.C. Datação aproximada A sepultura de Psusenes I e a ourivesaria de Tânis A câmara de Psusenes I em Tânis foi encontrada fechada e completa, com um caixão interno de prata maciça, máscara de ouro, joias e vasos de metal. É o enterramento real intacto mais bem documentado depois do…
- Localização
- Necrópole real de Tânis
Baixo Egito - Dinastia
- XXI Dinastia
- Governante
- Psusenes I
A necrópole real de Tânis foi instalada dentro do recinto do templo de Amon, prática nova que aproximava os mortos reais do santuário e das muralhas. As escavações do fim da década de trinta e do começo da de quarenta encontraram sepulturas de vários reis do norte, entre elas a de Psusenes I, que reinou cerca de meio século. O sarcófago externo, de granito, e o antropoide interno vinham de monumentos anteriores reaproveitados; dentro deles estava um caixão de prata maciça, com máscara de ouro sobre o rosto.
A data corresponde ao fim do reinado de Psusenes I, estimado em cerca de quarenta e seis anos a partir de fontes indiretas; a margem é de alguns anos.
c. 925 a.C. Datação aproximada Sesonquis I reunifica o Egito e ataca o Levante De origem líbia e vindo de Bubástis, Sesonquis I recompôs a autoridade sobre o Egito inteiro colocando parentes nos cargos decisivos e conduziu uma campanha ao Levante. A relação dos lugares alcançados foi…
- Localização
- Do sul do Levante a Megido
Levante e Síria - Dinastia
- XXII Dinastia
- Governante
- Sesonquis I
A XXII Dinastia nasceu da integração de famílias líbias instaladas no delta havia gerações, com chefias militares reconhecidas e terras próprias. Sesonquis I reuniu o norte e obteve o reconhecimento do sul pelo caminho mais eficaz: nomeou o próprio filho sumo sacerdote de Amon em Tebas e distribuiu comandos e sacerdócios entre membros da família. Com o país sob uma só autoridade pela primeira vez em mais de um século, retomou a antiga política de intervenção na Ásia, interrompida desde o fim do Novo Império.
A campanha é situada nos últimos anos de Sesonquis I, mas o texto de Karnak não a data com clareza, e as propostas variam entre o vigésimo e o vigésimo segundo ano de reinado.
853 a.C. Datação em debate O Egito na coalizão contra a Assíria em Carcar Em Carcar, no Orontes, uma aliança de reinos sírios e levantinos enfrentou o exército de Salmanasar III. O monólito assírio que narra o episódio arrola entre os aliados mil soldados de Musri, termo em geral…
- Localização
- Carcar, no rio Orontes
Levante e Síria - Dinastia
- XXII Dinastia
- Governante
- Osorkon II
O avanço assírio para oeste ameaçava as rotas que ligavam a Mesopotâmia ao Mediterrâneo e, por extensão, os interesses egípcios na região. A coalizão reuniu Damasco, Hamat, Israel e outros contingentes menores, entre eles o de Musri. Salmanasar III declarou vitória e enumerou perdas enormes do adversário, mas não prosseguiu para o sul, não cobrou tributo das cidades derrotadas e voltou a atacar a mesma região em campanhas posteriores, o que sugere um resultado bem menos definitivo do que o texto afirma.
O ano é fixado com segurança pelos registros assírios, mas a participação egípcia depende da leitura do nome Musri no monólito de Kurkh e da atribuição do contingente a Osorkon II, dois pontos em que os especialistas divergem.
c. 750 a.C. Datação aproximada A Esposa Divina de Amon concentra poder em Tebas O título de Esposa Divina de Amon, antigo mas secundário, tornou-se no primeiro milênio o cargo mais poderoso de Tebas. Ocupado por filhas de reis que não se casavam e escolhiam a sucessora por adoção, dava a…
- Localização
- Karnak e Tebas
Alto Egito - Dinastia
- XXV Dinastia
- Governante
- Titulares do cargo, de Chepenupet, filha de Osorkon III, a Ankhnesneferibré, filha de Psamético II
O arranjo resolvia um problema concreto. Depois de séculos de autonomia sacerdotal, os reis do delta e, em seguida, os de Cuxe precisavam de alguém em Tebas que representasse sua autoridade sem criar uma linhagem rival. A solução foi entregar o cargo a uma princesa consagrada ao deus, sem descendência e, portanto, sem herdeiros capazes de disputar o trono. A titular administrava o domínio do templo, patrocinava construções em Karnak e em Medinet Habu, presidia rituais antes reservados ao rei e tinha o nome escrito na cartela oval dos soberanos.
A data indicada corresponde ao momento em que a função passou às princesas cuxitas. A instituição é mais antiga e atravessou várias dinastias, e sua cronologia interna depende de sincronismos entre listas sacerdotais e reinados.
c. 727 a.C. Datação aproximada Pie conquista o Egito e instala a XXV Dinastia Rei de Cuxe sediado em Napata, Pie desceu o Nilo para impor ordem entre os príncipes do delta e fazer valer sua autoridade sobre todo o país. A Grande Estela da Vitória, achada no templo de Gebel Barkal, narra…
- Localização
- De Napata a Mênfis e ao delta
Todo o Egito - Dinastia
- XXV Dinastia
- Governante
- Pie
Os reis de Cuxe não chegaram ao Egito como estrangeiros diante de uma cultura alheia. Governavam desde Napata uma região onde o culto de Amon estava estabelecido havia séculos, escreviam na língua clássica egípcia, adotavam a titulatura faraônica completa e se apresentavam como restauradores de uma ordem que os príncipes do delta teriam abandonado. A intervenção foi motivada pelo avanço de Tefnakht, príncipe de Sais, que unificava o norte e ameaçava as cidades do Médio Egito leais a Cuxe.
A campanha é datada do ano vinte e um de Pie na Grande Estela da Vitória; a conversão em data absoluta depende da duração atribuída aos primeiros reinados cuxitas, que varia entre as reconstruções.
663 a.C. Datação estabelecida As invasões assírias e o saque de Tebas Depois de duas décadas de choques, o exército de Assurbanipal respondeu à retomada de Mênfis por Tanutamani avançando até Tebas, que foi saqueada e teve obeliscos levados para a Assíria. A XXV Dinastia recuou…
- Localização
- Mênfis e Tebas
Alto Egito - Dinastia
- XXV Dinastia
- Governante
- Tanutamani
O conflito começou no reinado de Taharca. Esarhadon tomou Mênfis, e Assurbanipal derrotou o rei cuxita em duas campanhas, instalando dinastas locais do delta como vassalos e levando parte da família real como cativa. Com a morte de Taharca, Tanutamani subiu ao trono, desceu o rio e retomou Mênfis; Necau de Sais, principal apoio dos assírios no norte, morreu nesse episódio. A reação veio de imediato e chegou mais longe no vale do Nilo do que qualquer exército estrangeiro havia chegado até então.