Bloco 9 de 12 · c. 664 – 332 a.C.
Época Baixa
A Época Baixa combina a restauração deliberada das formas antigas com uma abertura inédita ao Mediterrâneo. É o Egito que Heródoto visita, o dos mercenários gregos e das colônias do delta, e também o que o Império Persa anexa duas vezes antes da chegada de Alexandre.
11 acontecimentos XXVI Dinastia XXVII Dinastia XXVIII Dinastia XXIX Dinastia XXX Dinastia XXXI Dinastia
Sais reunifica, a Pérsia anexa, Nectanebo resiste
Psamético I, dinasta de Sais, expulsa os assírios do cálculo político, absorve as casas rivais do delta e obtém a adoção de sua filha Nitocris como Esposa Divina de Amon, o gesto que reconcilia Tebas com o novo centro. A XXVI Dinastia cria uma marinha, contrata mercenários gregos e cários e projeta o país de novo no Levante — até a derrota em Carquemis, em 605 a.C., encerrar essa projeção.
Cambises vence em Pelúsio em 525 a.C. e transforma o Egito em satrapia. A XXVII Dinastia é o nome egípcio desse primeiro domínio persa. Revolta e restauração se sucedem nas XXVIII a XXX Dinastias; Nectanebo II é o último rei nativo a governar o país inteiro. A segunda ocupação persa, breve, precede a entrada de Alexandre em 332 a.C. A cronologia deste bloco é a primeira do acervo em que muitas datas podem ser cruzadas com fontes gregas e mesopotâmicas.
Náucratis, o canal e o soldado que assina a parede
Náucratis, no braço canópico, concentra e regula o comércio grego: azeite, vinho, cerâmica e os benefícios da alfândega saíta. Mercenários gregos e cários recebem terras no delta e deixam grafites em Abu Simbel durante a campanha de Psamético II na Núbia — nomes, pátrias e o orgulho de ter chegado tão ao sul. O exército egípcio do século VI a.C. é um exército misto, e isso se lê na pedra.
A tentativa de ligar o Nilo ao Mar Vermelho pelo Uádi Tumilate, atribuída a Neco II e retomada depois pelos persas, mostra a escala da ambição comercial. Heródoto descreve o país como dádiva do rio e registra obras, costumes e medidas que a arqueologia confirma em parte e corrige em parte. O trigo do vale, o papiro e o linho continuam a ser a base; o que muda é o comprador, agora também sentado do outro lado do Mediterrâneo.
O renascimento saíta e o touro que desce a galeria
As oficinas da XXVI Dinastia copiam a estatuária do Antigo e do Médio Império com um virtuosismo técnico que os egiptólogos chamam de renascimento saíta. Não é simples nostalgia: é um programa político. Governar depois da Assíria e ao lado dos gregos exige demonstrar que o país ainda sabe ser o que as listas reais dizem que foi. Os templos recebem portas novas, os sarcófagos se enchem de textos e o hieróglifo ganha uma regularidade quase tipográfica.
O culto de Ápis, o touro sagrado de Mênfis, ganha galerias monumentais no Serapeu de Saqara. Cada animal é enterrado em sarcófago de pedra, com estela e data. O rito sobrevive às duas ocupações persas e será reinterpretado, no período seguinte, no culto de Serápis. Udjahorresne, almirante saíta que serve a Cambises e a Dario, deixa em sua estátua uma autobiografia da acomodação: restaura o templo de Sais e apresenta o rei persa como faraó que aprendeu a se comportar como tal.
O último rei nativo e a porta que Alexandre atravessa
Nectanebo II resiste, constrói e acaba por recuar para o sul. A segunda ocupação persa é curta e malquista nas fontes posteriores. Quando Alexandre entra em Mênfis e visita o oráculo de Amon em Siuá, encontra um país que já havia ensinado invasores a se coroarem à maneira egípcia. O período ptolemaico herda essa lição e a transforma em dinastia.
O que a Época Baixa deixa não é apenas o fim da independência nativa. Deixa Náucratis, o hábito de escrever o país para um público grego, o arquivo do Serapeu e uma arte que ensinou o século IV a.C. a parecer antiga. Deixa também a primeira cronologia em que o vale do Nilo entra, de forma contínua, na história política do Mediterrâneo oriental.
Pontos em debate entre especialistas
- O grau de ruptura ou continuidade administrativa entre a XXVI Dinastia e a satrapia persa varia conforme se privilegiam as fontes gregas, hostis a Cambises, ou os documentos egípcios de templos que seguem funcionando.
- A atribuição e o traçado do canal entre o Nilo e o Mar Vermelho são reconstruídos a partir de Heródoto, de estelas persas e de vestígios no Uádi Tumilate, com leituras que não coincidem em todos os trechos.
Percurso cronológico completo Largura proporcional à duração de cada bloco
Cronologia do período
11 acontecimentos entre 1798 d.C. – presente
Fichas em ordem cronológica. Abra qualquer uma para ver a localização, o governante e o contexto imediato.
656 a.C. Datação aproximada Psamético I reunifica o Egito e rompe com a Assíria Instalado no delta como vassalo assírio, Psamético I aproveitou o desgaste militar de Nínive para submeter os principados vizinhos e obter o reconhecimento de sua autoridade em Tebas. Em 656 a.C. o Egito…
- Localização
- Sais, Mênfis e Tebas
Todo o Egito - Dinastia
- XXVI Dinastia
- Governante
- Psamético I
A XXVI Dinastia nasceu de uma derrota. Depois de duas invasões assírias, Sais era apenas um dos principados do delta reconhecidos por Nínive, e Necao I governava com o consentimento de Assurbanipal. Seu filho Psamético chegou a receber um nome de corte assírio e um distrito em Atribis antes de assumir a herança paterna, por volta de 664 a.C., quando o pai morreu no confronto com o último rei cuxita. O que restava era um país partido em três: um delta de dinastas rivais, um Médio Egito de lealdades incertas e uma Tebas administrada por famílias sacerdotais que havia servido à dinastia núbia.
A duração do reinado é firme, mas 656 a.C. marca apenas o momento em que a autoridade saíta foi aceita em Tebas. A reunificação foi um processo distribuído pelos oito primeiros anos de governo.
c. 650 a.C. Datação aproximada O renascimento saíta reinventa a tradição As oficinas saítas voltaram a copiar relevos, títulos e tipos de estátua do Antigo e do Médio Império, mas com pedras mais duras, outra grade de proporções e um acabamento sem precedente. A escolha do…
- Localização
- Sais, Mênfis e oficinas do delta
Baixo Egito - Dinastia
- XXVI Dinastia
- Governante
- Psamético I
O arcaísmo saíta não foi um estilo, mas um método. Nas tumbas tebanas de Montuemhat e de Ibi, cenas inteiras foram decalcadas de mastabas de Saqara do terceiro milênio e de relevos do templo de Mentuhotep II, depois recombinadas com motivos contemporâneos. Sarcófagos e paredes de câmara voltaram a receber os Textos das Pirâmides, fora de uso havia mais de mil anos, e altos funcionários ressuscitaram cargos que já eram antiguidades no próprio tempo deles. A operação exigia acesso aos monumentos, cópia em campo e uma noção precisa de quais épocas valia a pena citar.
O termo designa uma tendência que atravessa a dinastia inteira, e não um acontecimento isolado. A data serve de marco para o momento em que as oficinas de Sais e de Mênfis já trabalhavam nesse programa.
c. 650 a.C. Datação aproximada Mercenários gregos e cários entram no exército egípcio Psamético I pagou soldados vindos da Jônia e da Cária e os assentou em acampamentos permanentes no delta oriental. Em poucas gerações aquelas guarnições tinham famílias, cemitérios e estelas funerárias em duas…
- Localização
- Guarnições do delta e Mênfis
Baixo Egito - Dinastia
- XXVI Dinastia
- Governante
- Psamético I
Heródoto conta que homens armados de bronze desembarcaram no delta e que o rei os tomou a soldo, concedendo-lhes terras em dois acampamentos no braço pelusíaco. Acrescenta que meninos egípcios foram entregues a eles para aprender a falar com estrangeiros, o que teria criado a classe dos intérpretes. Amásis II, um século depois, transferiu esses contingentes para Mênfis e fez deles sua guarda pessoal. A narrativa é tardia e esquemática, mas o quadro geral coincide com o que a documentação mostra: uma coroa que preferia pagar profissionais a mobilizar camponeses.
A chegada dos primeiros contingentes é situada nos anos iniciais de Psamético I, sem data documentada. O relato de Heródoto é a única narrativa disponível e comprime décadas em poucos episódios.
c. 640 a.C. Datação aproximada O culto de Ápis e as galerias do Serapeu Um único touro por vez encarnava Ápis, manifestação viva de Ptah em Mênfis. Reconhecido por marcas na pelagem, vivia num recinto do templo, era embalsamado ao morrer e depositado em um sarcófago de pedra nas…
- Localização
- Serapeu de Saqara, junto a Mênfis
Baixo Egito - Dinastia
- XXVI Dinastia
- Governante
- Psamético I
O animal era escolhido por sinais precisos no pelo e recebido no templo de Ptah com sua mãe, que também tinha culto próprio. Respondia a consultas por meio de movimentos interpretados por sacerdotes, aparecia em festas e tinha um pessoal permanente a seu serviço. Quando morria, o país entrava em luto: o corpo era tratado durante setenta dias em mesas de alabastro na oficina de embalsamamento de Mênfis, conduzido em procissão ao planalto de Saqara e sepultado como Osíris-Ápis. Só então começava a busca pelo sucessor, que podia levar meses.
A data marca a abertura da grande galeria escavada no reinado de Psamético I. O culto é muito mais antigo, e cada enterramento é datado pelo ano de reinado do soberano, não por um calendário absoluto.
605 a.C. Datação estabelecida A derrota em Carquemis encerra a influência egípcia na Ásia Depois de quatro anos administrando a Síria e a Palestina, o exército de Necao II foi desfeito em Carquemis pelas tropas babilônicas de Nabucodonosor. O Egito recuou para as próprias fronteiras e nunca voltou…
- Localização
- Carquemis, no alto Eufrates
Levante e Síria - Dinastia
- XXVI Dinastia
- Governante
- Necao II
A queda de Nínive, em 612 a.C., deixou um vazio que o Egito tentou ocupar. Em 609 a.C. Necao II marchou para o norte em socorro do que restava do poder assírio, enfrentou e matou Josias de Judá no caminho por Megido, e passou a dispor das cidades levantinas como senhor: depôs e nomeou reis em Jerusalém, cobrou tributo e instalou guarnições até o alto Eufrates. Durante quatro anos o vale do Orontes e a costa fenícia estiveram sob controle egípcio, uma situação que não se repetia desde o fim do Novo Império.
c. 600 a.C. Datação aproximada A tentativa de ligar o Nilo ao Mar Vermelho Necao II abriu uma via navegável que partia do braço pelusíaco do Nilo e seguia pelo Uádi Tumilate em direção aos lagos amargos. Não era um corte entre dois mares, como o traçado moderno: a obra foi…
- Localização
- Uádi Tumilate, do delta oriental aos lagos amargos
Deserto Oriental e Mar Vermelho - Dinastia
- XXVI Dinastia
- Governante
- Necao II
O percurso aproveitava uma depressão natural que corre para leste a partir do delta oriental. A escavação levava água do rio até a região dos lagos amargos e, de lá, descia para o golfo de Suez, de modo que barcos de rio pudessem alcançar a costa oriental. Nada disso funcionava como uma passagem entre mares abertos: o canal dependia do nível do Nilo, servia sobretudo durante a inundação e precisava de dragagem constante para não desaparecer sob o assoreamento. Necao II tinha motivos claros para tentar, pois estava construindo ao mesmo tempo uma frota de guerra em dois mares.
O início das obras é situado no reinado de Necao II sem ano preciso. Os relatos antigos sobre a interrupção e sobre a etapa final divergem nos detalhes.
593 a.C. Datação aproximada Soldados de Psamético II assinam a parede de Abu Simbel Na perna de um colosso de Ramsés II, soldados a serviço de Psamético II gravaram em grego, em cário e em fenício o registro de sua subida do Nilo. O conjunto está entre os textos alfabéticos gregos mais…
- Localização
- Abu Simbel, durante a campanha contra Cuxe
Núbia e Cuxe - Dinastia
- XXVI Dinastia
- Governante
- Psamético II
No terceiro ano de reinado, Psamético II enviou contra Cuxe uma expedição que subiu o rio muito além da Segunda Catarata. Estelas encontradas em Tânis, Karnak e Assuã celebram a vitória, e o mesmo reinado ordenou o apagamento dos nomes dos reis núbios nos monumentos egípcios. O grafite grego de Abu Simbel completa o quadro pelo lado da tropa: diz que os autores chegaram até onde o rio permitia navegar, na altura de Kerkis, e nomeia os dois comandantes, um à frente dos contingentes estrangeiros e outro à frente dos egípcios.
A campanha é datada do terceiro ano de Psamético II por estelas egípcias, mas os grafites não trazem data. Discute-se se foram gravados na subida do rio ou no regresso.
c. 570 a.C. Datação aproximada Náucratis concentra e regula o comércio grego Amásis II concedeu aos gregos um porto único no braço canópico do Nilo, com santuários, oficinas e cobrança de direitos. Os achados do local mostram que o povoado já existia antes dele: o que a coroa fez foi…
- Localização
- Náucratis, no braço canópico do Nilo
Baixo Egito - Dinastia
- XXVI Dinastia
- Governante
- Amásis II
Náucratis ficava a cerca de oitenta quilômetros do mar, sobre o braço canópico, longe o bastante para que todo o tráfego passasse por postos de controle egípcios. Ali conviviam santuários de Apolo, de Hera e de Afrodite, um recinto comum fundado por nove cidades da Ásia Menor e das ilhas, um templo egípcio de Amon e oficinas que produziam amuletos e faianças em série. Os mercadores traziam prata, vinho e azeite e levavam cereal, natrão, papiro e linho. O povoado tinha caráter permanente, com bairros, cemitérios e famílias mistas.
A cerâmica encontrada no local indica presença grega já no fim do século VII a.C., antes da regulamentação atribuída a Amásis II. A data corresponde ao início desse reinado, não à fundação do povoado.
525 a.C. Datação estabelecida A conquista persa e a batalha de Pelúsio O exército de Cambises II derrotou Psamético III em Pelúsio e tomou Mênfis, transformando o Egito em província do Império Persa. Sobre a conduta do vencedor, a tradição grega e os documentos egípcios…
- Localização
- Pelúsio, no delta oriental
Baixo Egito - Dinastia
- XXVII Dinastia
- Governante
- Cambises II
Amásis II morreu pouco antes do ataque, e seu filho Psamético III reinava havia poucos meses quando a força persa atravessou o Sinai com apoio de guias árabes. O confronto decisivo ocorreu em Pelúsio, na entrada oriental do delta; em seguida Mênfis foi sitiada e tomada, o rei egípcio foi deposto e mais tarde executado. Cambises assumiu titulatura faraônica e organizou o país como satrapia, o bloco que as listas antigas contam como XXVII Dinastia. Cirene e os vizinhos líbios enviaram submissão sem luta.
c. 450 a.C. Datação em debate Heródoto visita o Egito e escreve sobre o país O segundo livro das Histórias descreve o Egito sob domínio persa: embalsamamento, cultos animais, festas, o regime da cheia e uma longa lista de reis. Heródoto afirma ter chegado a Elefantina, mas a extensão…
- Localização
- Do delta a Elefantina
Todo o Egito - Dinastia
- XXVII Dinastia
- Governante
- Heródoto de Halicarnasso
O relato é a mais antiga descrição extensa do Egito feita por um estrangeiro e continua indispensável. Dele vêm informações que nenhuma outra fonte conserva: as três faixas de preço do embalsamamento, o funcionamento de Náucratis, a instalação dos soldados estrangeiros, o calendário de festas em Bubástis, as medições do edifício de Hauara que os gregos chamavam de Labirinto. Heródoto diz ter conversado com sacerdotes em Mênfis, em Tebas e em Heliópolis, e recorreu a intérpretes, quase certamente das comunidades gregas e cárias instaladas no país havia gerações.
A viagem é datada apenas por indícios internos da obra, entre cerca de 460 e 440 a.C. A extensão do roteiro, a duração da estadia e a confiabilidade de várias informações continuam em debate.
343 a.C. Datação estabelecida Nectanebo II e o fim da última independência egípcia Nectanebo II sustentou o trono por dezessete anos com generais gregos a soldo e um programa de obras em quase todos os templos do país. Em 343 a.C. as defesas do delta cederam ao ataque de Artaxerxes III, e o…
- Localização
- Delta oriental, Mênfis e Alto Egito
Todo o Egito - Dinastia
- XXX Dinastia
- Governante
- Nectanebo II
A independência recuperada em 404 a.C. dependia de dois pilares: alianças no Egeu e no Levante, que mantinham a Pérsia ocupada, e comandantes gregos contratados para treinar e liderar as tropas. Nectanebo II chegou ao poder por volta de 360 a.C., depois de afastar o antecessor, e usou os dois recursos com competência. Em 351 a.C. repeliu uma invasão persa com o apoio de oficiais atenienses e, nos anos seguintes, financiou a revolta de Sídon e das cidades de Chipre, o que atrasou ainda mais qualquer novo ataque, mas também garantiu que ele viria.