Bloco 12 de 12 · 1798 d.C. – presente
Descobertas arqueológicas
Tudo o que se sabe sobre o Egito antigo chegou até o presente por trabalho de campo, decifração e conservação. Este bloco reúne os episódios que construíram a egiptologia como disciplina, da expedição científica de 1798 às campanhas e aos métodos das últimas décadas.
11 acontecimentos
Do inventário napoleônico ao serviço de antiguidades
A expedição francesa de 1798 leva ao vale engenheiros, desenhistas e naturalistas. A Description de l'Égypte inventaria templos, fauna, medidas e costumes, e registra edifícios que desapareceriam em seguida. Em 1799, a Pedra de Roseta é encontrada em Rachid: um decreto ptolemaico em três escritas, a chave que Champollion usará em 1822 para demonstrar o funcionamento fonético e ideográfico do hieróglifo.
O século XIX combina decifração, coleta e, progressivamente, tutela. Mariette funda o serviço de antiguidades e o museu do Cairo, deslocando o centro de guarda dos objetos para o próprio país. Belzoni desobstrui Abu Simbel e reabre tumbas no Vale dos Reis com métodos que hoje seriam inaceitáveis e que, na época, ainda confundiam exploração e estudo. A disciplina nasce no intervalo entre esses dois gestos.
O campo vira método e o objeto vira contexto
Petrie transforma a escavação em sequência de camadas e em tipologia cerâmica. Em vez de procurar apenas peças de museu, registra a posição de cada objeto e data os sítios pela sucessão dos tipos. O método estratigráfico e a seriação tornam possível falar de Nacada I e II com rigor, e não apenas de antiguidades sem contexto. A egiptologia deixa de ser um ramo da curiosidade antiquária e passa a produzir cronologias relativas que as listas reais, sozinhas, não sustentavam.
O esconderijo de múmias reais de Deir el-Bahari, revelado no fim do século XIX, e a tumba de Tutancâmon, encontrada por Carter em 1922, mudam a escala do que o público entende por descoberta. O primeiro devolve ao Estado egípcio os corpos de uma dezena de reis; o segundo conserva, quase intacto, o enxoval de um reinado curto. Em Amarna, as escavações alemãs trazem à luz o busto de Nefertiti e o bairro das oficinas, um conjunto que documenta a arte da reforma de Aton no lugar onde ela foi feita.
Conservar o que a água e o mercado ameaçam
A campanha da Unesco pelos templos da Núbia, nos anos 1960, desloca Abu Simbel e Filas bloco a bloco diante da subida do lago de Assuã. É a primeira operação internacional de conservação em escala monumental no vale, e o precedente de um princípio: o sítio importa tanto quanto a peça. O Grande Museu Egípcio, em Gizé, reúne nas décadas seguintes o enxoval de Tutancâmon e coleções que o antigo museu do Cairo já não comportava.
A egiptologia contemporânea trabalha menos com "grandes achados" isolados do que com séries: papiros de Uádi el-Jarf publicados a partir de 2013, o cemitério de Saqara em campanhas sucessivas, o assentamento anunciado em Luxor em 2021, análises de resíduos em vasos, isótopos em dentes e ossos, tomografia de múmias e o uso de radar e partículas no interior da Grande Pirâmide. O volume de material escavado e ainda inédito é maior do que o volume publicado.
O que este acervo deve a esse trabalho
Cada data, cada atribuição e cada reserva deste arquivo dependem de camadas, de textos decifrados e de instituições que guardam os objetos. A periodização em doze blocos, a lista de dinastias de Manetão e a própria possibilidade de escrever uma linha do tempo contínua são produtos dessa história moderna, não um dado que o Egito antigo tenha deixado pronto.
O bloco de descobertas não fecha o passado: abre o presente da pesquisa. Novos métodos corrigem datas, reatribuem monumentos e devolvem nomes a pessoas que as listas reais omitiram. Por isso o acervo declara o grau de certeza de cada registro e se reserva o direito de corrigir em público o que a pesquisa corrigir.
Pontos em debate entre especialistas
- A partilha de achados entre missões estrangeiras e o Estado egípcio, regra do início do século XX, é hoje objeto de revisão ética e jurídica; o acervo registra os objetos onde estão e as circunstâncias da descoberta, sem relitigar cada caso.
- A data de abertura plena do Grande Museu Egípcio e o ritmo de publicação de campanhas recentes mudam com frequência; os registros deste bloco descrevem o estado da pesquisa, não um inventário fechado.
Percurso cronológico completo Largura proporcional à duração de cada bloco
Cronologia do período
11 acontecimentos entre 1798 d.C. – presente
Fichas em ordem cronológica. Abra qualquer uma para ver a localização, o governante e o contexto imediato.
1798 – 1801 d.C. Datação estabelecida A expedição científica que inventariou o Egito A campanha militar francesa no Egito trouxe consigo uma comissão de cerca de cento e sessenta especialistas encarregados de medir, desenhar e descrever o país. O resultado foi um levantamento em vários volumes…
- Localização
- Do delta a Assuã
Todo o Egito - Dinastia
- Anterior às dinastias
- Governante
- Equipe de sábios da expedição ao Egito
A comissão reunia engenheiros, desenhistas, naturalistas, médicos e matemáticos, instalados no Cairo em uma sociedade científica criada em agosto de 1798. Enquanto as tropas subiam o rio, Vivant Denon acompanhava a marcha desenhando templos em condições precárias, muitas vezes com poucas horas em cada parada. Outros integrantes mediram edifícios, traçaram plantas baixas, catalogaram espécies vegetais e animais e descreveram o Egito de seu tempo, do funcionamento da irrigação aos ofícios praticados nas cidades. O conjunto foi impresso em Paris entre 1809 e 1829, com centenas de estampas de grande formato.
1799 d.C. Datação estabelecida A Pedra de Roseta é encontrada em Rachid Durante obras em um forte perto de Rachid, no delta, soldados franceses notaram um bloco de granodiorito reaproveitado na alvenaria, com o mesmo decreto gravado em três formas de escrita. A peça deu aos…
- Localização
- Fortaleza de Julien, em Rachid, no delta
Baixo Egito - Dinastia
- Anterior às dinastias
- Governante
- Oficiais e engenheiros em Rachid
O bloco apareceu em julho de 1799, durante o reforço de uma fortificação junto à foz ocidental do rio. Um oficial percebeu que a pedra encaixada no muro trazia inscrições distribuídas em três faixas e mandou retirá-la. Cópias em tinta foram tiradas e enviadas a estudiosos na Europa antes mesmo de a peça sair do Egito. Com a capitulação francesa em 1801, o original passou às mãos britânicas e está exposto em Londres desde 1802. A pedra já era material reaproveitado quando surgiu na muralha: seu lugar de origem era um templo do delta, e não a fortaleza onde foi vista pela primeira vez.
1817 d.C. Datação estabelecida Abu Simbel é desobstruída e o Vale dos Reis reaberto Contratado para recolher antiguidades de grande porte, Belzoni removeu a areia que soterrava a fachada do grande templo de Abu Simbel e entrou no interior em agosto de 1817. Meses depois localizou no Vale dos…
- Localização
- Abu Simbel e Vale dos Reis
Núbia e Cuxe - Dinastia
- Anterior às dinastias
- Governante
- Giovanni Battista Belzoni
Engenheiro hidráulico de formação e artista de força em Londres antes de chegar ao Egito, Belzoni foi contratado pelo cônsul britânico para obter peças de grandes dimensões. Em 1816 retirou do templo funerário de Ramsés II uma cabeça colossal, arrastada até o rio sobre roletes, e no ano seguinte voltou a Abu Simbel, onde a areia cobria a fachada quase até o topo das estátuas sentadas. A remoção durou dias e permitiu entrar nas salas escavadas na rocha pela primeira vez em séculos. Em outubro localizou a tumba de Seti I e, no ano seguinte, a entrada da pirâmide de Quéfren.
1822 d.C. Datação estabelecida Champollion decifra a escrita hieroglífica Em setembro de 1822, Champollion demonstrou que os sinais hieroglíficos registravam sons da língua egípcia, e não apenas ideias. A leitura de nomes reais dentro das cartelas e o domínio do copta permitiram…
- Localização
- Paris, a partir de cópias da Pedra de Roseta
Mediterrâneo e Egeu - Dinastia
- Anterior às dinastias
- Governante
- Jean-François Champollion
O trabalho não começou do zero. Entre 1814 e 1819, o inglês Thomas Young estabeleceu que a escrita cursiva do decreto e os hieróglifos pertenciam ao mesmo sistema, isolou a cartela de Ptolomeu, propôs valores sonoros corretos para vários sinais e percebeu que os nomes reais eram grafados foneticamente. Young considerou, no entanto, que esse recurso servia apenas para transcrever nomes estrangeiros, e não para escrever a própria língua do país. Um obelisco trazido de Filas, com os nomes de Ptolomeu e de Cleópatra, ofereceu um segundo ponto de conferência para as equivalências então em discussão.
1858 d.C. Datação estabelecida Nasce o serviço de antiguidades e o museu do Cairo A criação de um serviço de antiguidades em 1858 deu ao país uma autoridade encarregada de fiscalizar escavações e conter a saída de objetos. Mariette, seu primeiro diretor, instalou em Bulaque o museu que…
- Localização
- Bulaque e, depois, praça Tahrir, no Cairo
Baixo Egito - Dinastia
- Anterior às dinastias
- Governante
- Auguste Mariette
Antes disso não havia controle. Cônsules, negociantes e viajantes compravam, escavavam e embarcavam o que quisessem, e monumentos eram desmontados para servir de pedra de construção. Mariette havia chegado ao país em 1850 para adquirir manuscritos e acabou escavando as galerias subterrâneas do Serapeu, em Saqara. Nomeado em 1858 para dirigir o novo órgão, passou a licenciar escavações, negar autorizações de saída e reunir em um edifício em Bulaque, à margem do rio, o material recolhido. O acervo abriu ao público em 1863, sobreviveu a uma enchente em 1878, mudou-se para um palácio em Gizé e, em 1902, ocupou o prédio construído para ele na praça central da cidade.
1881 d.C. Datação estabelecida O esconderijo de múmias reais de Deir el-Bahari é revelado Um poço estreito na encosta de Deir el-Bahari guardava cerca de cinquenta corpos e caixões retirados das tumbas reais por sacerdotes tebanos. O depósito havia sido localizado por moradores da região uma década…
- Localização
- Deir el-Bahari, Tebas ocidental
Alto Egito - Dinastia
- Anterior às dinastias
- Governante
- Gaston Maspero e Émile Brugsch
A ocultação foi obra dos próprios egípcios. Nos séculos finais do Novo Império e no período seguinte, sacerdotes de Tebas recolheram corpos reais violados por saqueadores, refizeram as ataduras e os transferiram de uma tumba a outra até reuni-los em um poço pertencente a uma família sacerdotal. Etiquetas escritas nas faixas e anotações nos caixões registram as datas e os responsáveis por cada transferência, e constituem a principal fonte para reconstituir esse itinerário.
1880 – 1900 d.C. Datação estabelecida Petrie transforma a escavação em método Petrie substituiu a busca por peças notáveis pelo registro exaustivo de tudo o que aparecia em uma escavação, a começar pela cerâmica comum. A partir de novecentas sepulturas pré-dinásticas montou uma…
- Localização
- Nacada, Lahun, Amarna e outros sítios
Todo o Egito - Dinastia
- Anterior às dinastias
- Governante
- William Matthew Flinders Petrie
O procedimento era simples de enunciar e trabalhoso de aplicar: anotar tudo, guardar tudo, publicar depressa. Petrie recolhia os cacos que outros descartavam, marcava a posição das peças, desenhava perfis e imprimia um volume por temporada de campo, hábito raro entre seus contemporâneos. Em um cemitério do Alto Egito, ordenou cerca de novecentas sepulturas pré-dinásticas segundo a variação gradual de um tipo de vaso com alças onduladas, agrupando-as em estágios numerados. Essa sequência atribuía idade relativa a enterramentos sem nome, sem data e sem texto, e resolvia um problema que a leitura de inscrições jamais resolveria.
1912 d.C. Datação estabelecida O busto de Nefertiti emerge das oficinas de Amarna Em dezembro de 1912, uma missão alemã encontrou em Amarna a cabeça pintada de Nefertiti, deixada na oficina de um escultor da corte ao lado de estudos em gesso. A peça coube à parte alemã na repartição dos…
- Localização
- Casa do escultor Tutmés, em Amarna
Médio Egito - Dinastia
- Anterior às dinastias
- Governante
- Ludwig Borchardt
A casa foi identificada como oficina pelo achado de uma peça de arreio em marfim com o nome do escultor Tutmés. Em um cômodo lateral estavam a cabeça pintada, apoiada no chão junto a uma parede, e um conjunto de estudos em gesso com rostos de integrantes da corte. A cabeça é de calcário revestido de estuque e pintado; um dos olhos recebeu embutido de cristal de rocha e o outro ficou vazio, o que indica peça de referência para uso interno da oficina, e não imagem destinada a culto. Os estudos em gesso esclareceram o método de trabalho: modelo, correção e transposição para pedra.
1922 d.C. Datação estabelecida A tumba de Tutancâmon é encontrada quase intacta A escada localizada em novembro de 1922 conduziu à única sepultura real do Vale dos Reis encontrada com o enxoval praticamente completo. Foram mais de cinco mil objetos, retirados ao longo de dez temporadas…
- Localização
- Tumba KV62, Vale dos Reis
Alto Egito - Dinastia
- Anterior às dinastias
- Governante
- Howard Carter e a equipe de Lorde Carnarvon
A escada apareceu sob restos de cabanas de operários, a poucos metros da entrada da tumba de Ramsés VI, em uma área já revolvida em campanhas anteriores. Atrás da porta selada havia uma antecâmara cheia de móveis, carros desmontados, caixas e estatuária, seguida da câmara funerária. A sepultura não estava inteiramente intacta: foi aberta ao menos duas vezes na Antiguidade e tornou a ser fechada pelos administradores da necrópole, que rearrumaram o depósito às pressas. O esvaziamento levou dez temporadas e foi conduzido por uma equipe fixa, com fotógrafo, químico, conservador, epigrafista e desenhista, instalada em uma tumba vizinha adaptada como laboratório.
1960 – 1980 d.C. Datação estabelecida A campanha internacional que moveu os templos da Núbia Para salvar os templos que o lago da represa de Assuã iria submergir, cerca de cinquenta países financiaram o desmonte e a remontagem de monumentos inteiros entre 1960 e 1980. A operação deu origem à ideia de…
- Localização
- De Abu Simbel a Filas
Núbia e Cuxe - Dinastia
- Anterior às dinastias
- Governante
- Campanha internacional coordenada pela UNESCO
A nova barragem elevaria o nível do rio e cobriria a Núbia setentrional. O apelo lançado em 1960 reuniu financiamento e equipes de dezenas de países. Em Abu Simbel, as fachadas e as salas escavadas na rocha foram serradas à mão em mais de mil blocos de vinte a trinta toneladas, içados e recompostos sessenta e cinco metros acima e duzentos metros atrás da posição original, dentro de uma colina artificial sustentada por uma cúpula de concreto que recebe o peso do terreno. O templo de Ísis foi desmontado e reerguido na ilha vizinha de Agilkia, cujo relevo foi remodelado para se aproximar do original. Kalabsha, Amada e Uádi es-Sebua também mudaram de lugar.
2000 – 2026 d.C. Datação estabelecida Novos métodos e descobertas das últimas décadas As últimas duas décadas somaram achados de campo e formas de exame que antes não existiam: arquivos administrativos do reinado de Quéops, necrópoles seladas em Saqara, um assentamento do Novo Império em Luxor…
- Localização
- Uádi el-Jarf, Saqara, Luxor e laboratórios de análise
Todo o Egito - Dinastia
- Anterior às dinastias
- Governante
- Missões egípcias e internacionais em atividade
Do lado do campo, a escavação de um porto do Antigo Império na costa do Mar Vermelho recuperou os documentos administrativos mais antigos conhecidos, publicados a partir de 2013, entre eles o registro diário de um chefe de equipe encarregado de levar blocos de calcário até o canteiro de Gizé. Em Saqara, missões egípcias vêm expondo desde 2018 centenas de caixões selados, instalações de embalsamamento e sepulturas de funcionários de várias épocas. Em 2021 anunciou-se, na margem ocidental de Luxor, um extenso assentamento do Novo Império com casas, fornos, oficinas e depósitos, que documenta o funcionamento cotidiano de um núcleo urbano ligado à corte.